O Presidente brasileiro tenta afastar-se do PSL, o partido que usou para se eleger para a presidência, e que é investigado por abusar dos fundos eleitorais atribuídos pelo Estado. Mas o partido está também em guerra com Bolsonaro.

O Partido Social Liberal (PSL), formação política que em 2018 levou ao poder o actual Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, vai ser alvo de uma auditoria externa, a pedido do próprio governante. O partido, em reacção à guerra aberta por Bolsonaro, respondeu pedindo uma audição às contas da campanha eleitoral do Presidente, eleito em Outubro de 2018.

Segundo a imprensa brasileira, além de Jair Bolsonaro, 21 parlamentares do PSL fizeram um pedido formal para que o partido forneça documentos e informações sobre as contas partidárias dos últimos cinco anos, incluindo os dados dos últimos meses. O analista da Globo Gerson Camarotti explica no seu blogue que o objectivo destes deputados é abandonar o partido juntamente com o Presidente, se este formalizar a sua ameaça.

No documento, é afirmado que os advogados de Bolsonaro submeterão os dados a uma auditoria “externa” e “independente”, e declaram que o objectivo é saber se a aplicação dos recursos públicos recebidos pelo PSL é feita de forma correcta, segundo o portal de notícias G1.

O texto diz ainda que uma análise preliminar nas prestações de contas entregues à Justiça Eleitoral mostra que estas “são sempre apresentadas de forma precária”. “O notório sucesso do PSL na campanha eleitoral de 2018, oportunidade em que elegeu 54 deputados federais, é o factor que resultou no súbito aumento de mais de dez vezes nos recursos públicos que receberá neste ano. Com isso, calha a responsabilidade de rigoroso acompanhamento das despesas do partido”, diz o texto, a que o G1 teve acesso.

Entre os autores do pedido estão dois filhos do chefe de Estado, o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro.

A auditoria externa surge num período de crise interna do PSL, em que muitos deputados de primeira linha têm criticado o rumo seguido pela governação de Bolsonaro. Mas as suspeitas em torno dos candidatos “laranja” – falsos candidatos, ou candidatos sem hipóteses de serem eleitos, mas que são usados para garantir verbas de apoio à sua candidatura atribuídas pelo Estado, que são usadas pelo partido para outros fins – já se arrastam desde o início do ano. Levaram aliás à primeira baixa no Governo de Jair Bolsonaro – a de Gustavo Bebiano, um dos principais artífices da candidatura do Presidente.

Apesar de Bolsonaro ter entrado agora com um pedido de prestação de contas do seu próprio partido, na passada quarta-feira o Presidente afirmou que “por enquanto” permanecerá no PSL, comparando a crise nesta formação política a uma “discussão entre marido e mulher”.

“Por enquanto, eu continuo [no PSL]. Não existe crise. É uma discussão entre marido e mulher, de vez em quando acontece. O problema não é meu. O pessoal quer um partido diferente, actuante. O partido está estagnado. Não tem confusão nenhuma”, afirmou o chefe de Estado em Brasília, em declarações a jornalistas brasileiros.

Luciano Bívar, líder do PSL, afirmou no mesmo dia que Bolsonaro “já está afastado” da formação política, numa aparente ruptura entre ambos.

A polémica começou quando, na terça-feira, Bolsonaro orientou um seu apoiante a esquecer o PSL, partido de que é militante, acrescentando que Luciano Bivar, está “queimado”.

Após a polémica, Bívar declarou ao portal de notícias G1 que Bolsonaro “já está afastado” e “esquecido” do partido.

O PSL enfrenta ainda problemas na justiça. O Ministério Público (MP) Eleitoral do Estado brasileiro de Minas Gerais acusou na semana passada o actual ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, de desvios de recursos do fundo eleitoral de 2018, do PSL.

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Além do ministro do Turismo, outras 10 pessoas foram acusadas dos crimes de falsidade ideológica, apropriação indevida eleitoral e associação criminosa. “Após cerca de oito meses de investigação, o Ministério Público Eleitoral acusou (…) 11 pessoas por envolvimento num esquema de desvio de recursos por meio de ‘candidaturas fantasma’ nas últimas eleições”, segundo o procurador de Justiça Eleitoral Fernando Abreu, citado no ‘site’ do MP.

Todos os acusados estão ligados ao PSL.

Segundo o jornal Folha de São Paulo, também a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro saiu beneficiada com esse desvio de verbas.

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