Kerby Jean-Raymond (Foto: Getty)

No último domingo (29), o site Business of Fashion apresentou a sétima edição da lista BoF 500, uma seleção anual feita pelo portal que homenageia as personalidades mais influentes e relevantes na moda. A lista deste ano, no entanto, veio envolta em polêmicas. Ao ser anunciado como um dos escolhidos, o designer Kerby Jean-Raymond, da Pyer Moss — marca que, através da moda, tem o objetivo de “devolver aos negros a cultura que lhe foi apropriada”, nas palavras do próprio fundador — disse que a homenagem veio com um custo e criticou o portal de tratar inclusão como uma “tendência”.

“A cada ano, desde 2013, buscamos e descobrimos novos nomes para adicionar à nossa comunidade de pessoas que moldam a indústria da moda global com base em indicações de membros do BoF 500 existentes”, diz o comunicado do site sobre o BoF 500. Neste ano, a lista inlcuiu pessoas como a modelo Adut Akech, o diretor criativo de Valentino Pierpaolo Piccioli, a rapper Chika Oranika, Dapper Dan e, claro, Kerby Jean-Raymond. Mas logo depois anunciado, Jean-Raymond reagiu nas redes sociais, dizendo que o BoF 500 seria BoF 499, pois ele não aceitaria ter seu nome ali.

Carta aberta

Em um artigo publicado no Medium, Jean-Raymond explicou o imbróglio. Tudo começou quando o designer teve a chance de falar durante a BoF Voices, uma conferência feita pelo portal em Londres, em 2018. Ele disse à publicação que não queria participar dos painéis em grupos, e que, ao invés disso, toparia participar se pudesse dar uma palestra tipo “TedTalk”, acompanhado de Bethann Hardison. No meio do vôo para a conferência, ele foi informado de que, apesar de seu pedido inicial, sua participação se daria em um painel de grupo: uma conversa entre Bethann Hardison, Patrick Robinson (o ex-diretor de criação da Gap e Armani Exchange) e seu amigo e designer LaQuan Smith, moderado pelo editor do site, Tim Blanks. Jean-Raymond diz que se sentiu insultado pela mudança de última hora e chegou à conclusão de que o painel em grupo era o plano desde o inicio — o que o levou a ligar para o editor-chefe da publicação Imran Amed, alguns meses depois.

“Ele disse que gostava do trabalho que eu estava fazendo com Pyer Moss e na comunidade e fui selecionado para fazer parte de uma das três capas da revista BoF 500”, explicou Jean-Raymond em seu texto, acrescentando que ficou animado com o convite. A partir daí, Jean-Raymond conta que fez uma série de telefonemas e reuniões em Paris com Amed, nas quais o último pedia dicas de outros nomes de personalidade “diversas” do mundo da moda para incluir no BoF 500. Como ele tinha a impressão de que seria apresentado na capa, Jean-Raymond compartilhou notícias com a equipe do BoF que ele ainda não havia divulgado, como uma parceria que faria com a Reebok. A capa com Raymond, no entanto, nunca aconteceu. O designer foi apenas mencionado na lista, enquanto o site produziu duas capas individuais com Dapper Dan e Chika e outra de Adut Akech e Pierpaolo Piccioli juntos.

Foto do Instagram de Kerby em que mostra o coral negro no gala do BoF (Foto: Reprodução)

O que causou a indignação de Kerby, ele escreve, foi ao chegar a festa de gala do BoF 500. Na entrada do evento, um grupo de pessoas negras cantando gospel recepcionava os convidados. “Imran começa a dançar no palco com eles como se fosse Kirk Franklin. Para uma sala cheia de brancos “, escreve Jean-Raymond.” O que motiva alguém a sentir que tem o direito de fazer uma dança de Kirk Franklin no palco? As pessoas sentem que podem comprar ou possuir o que quiserem, principalmente se isso se refere à cultura negra. Estamos sempre à venda”. Alguns dos convidados negros sentiram-se tão mal que deixaram o evento, contou o designer.

Apropriação cultural

No texto, Kerby faz uma crítica direta à Imran.”Acho que sua marca é exploradora, você provou que é alimentada por interesses corporativos e práticas comerciais de merda. Eu entendo que você tem que ganhar dinheiro, todos nós estamos vendendo alguma coisa, mas não sua alma. E não a nossa”, disse. “Homenagem sem empatia e representação é apropriação. Em vez disso, explore sua própria cultura, religião e origem. Ao replicar a nossa e nos excluir, você nos prova que nos vê como uma tendência”, cravou o fundador da Pyer Moss.

Na noite da última terça-feira (1), Imran respondeu a algumas das declarações de Jean-Raymond, especificamente ao uso do coral gospel na gala do BoF 500. “Também posso garantir que esse tópico [de inclusão] não é uma tendência para mim”, escreveu Amed em um post intitulado “Por que estou ouvindo Kerby Jean-Raymond”.  Ele continua: “sinto profundamente com isso porque, durante a maior parte da minha vida, me senti como um estranho. Eu sempre fui a criança menor da classe. Como filho de imigrantes ismaelitas muçulmanos em Calgary, Canadá, vindos de Nairóbi, no Quênia, eu também era o único garoto pardo da minha classe. E, embora eu ainda não soubesse, eu era gay.”

A justificativa para o coral vem de uma lembrança de infância do próprio editor, que confessou que os momentos em que ele se sentia mais feliz quando criança eram nos ensaios de canto. “A primeira vez que me lembro de me sentir incluído foi quando descobri o coral e o teatro musical na quinta série”, continua ele. “Eu me senti completamente diferente de mim em nossos ensaios noturnos, em comparação com o que eu sentia na escola durante o dia, porque eu podia ser eu mesmo”, escreveu no post.

Você já acessou o Beauty Tudo hoje? Todos os dias tem uma avaliação nova de produto na mais diversa plataforma de beleza do país.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui