A ideia de que as redes sociais vão dominar o nosso cotidiano já não é mais abstrata: está acontecendo, inegavelmente. Fazemos check-in em nossos perfis, compartilhamos fotos dos pratos que comemos nos restaurantes, escrevemos todo tipo de acontecimento que nos envolve, e seguimos nos expondo cada vez mais nessa rede tão vasta. Escolhemos mostrar (a todo público, ou, no caso de alguns usuários, apenas a uma pequena fatia dos internautas: os seguidores) tudo aquilo que amamos, sem pensar exatamente em quem está vendo aquilo, se apoderando das informações. Para os adultos, isso já representa um certo perigo, que já chegou ao senso comum. Mas uma parte muito delicada dessa superexposição são as crianças.

É um pouco utópico imaginar uma geração atual de crianças que não cede aos encantos da infinidade de possibilidades que a internet propõe. Os pequenos já nascem sabendo mexer no celular dos pais, no tablet, já ficam quietinhos quando colocam algum desenho para assistir na Netflix, e a tecnologia está exercendo essa função de babá. Por sua vez, os pais enchem os stories de cada gracinha feita pelo bebê, cada momento de orgulho da criança maior, cada passeio em família, a primeira ida à praia, e torna as redes sociais o álbum da família. Mas será que expor os pequenos desde cedo (alguns até já têm perfil no Instagram quando nascem!) é uma atitude que pode trazer perigo? E por que será que existe a necessidade de expor tanto os filhos?

Foi pensando nisso que o Canaltech procurou Regina Lima, professora e especialista em psicopedagogia e altas habilidades pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Questionada sobre o porquê da necessidade que alguns pais sentem de expor seus filhos nas redes, Regina afirma: “De certa forma acho que é um pouco de preciosismo saudável. Os filhos são as coisas mais importantes, bonitas e inteligentes dos pais. Querem mostrar suas qualidades e belezas. Tempos atrás fazia-se álbuns de fotografia e levavam para as festas e reuniões familiares para mostrar aos amigos e parentes. Hoje, com a internet, a divulgação dá-se nas redes sociais”.

No entanto, a psicopedagoga reconhece que quando essa exposição é excessiva, o saudável se perde, e os riscos começam: “A criança fica vulnerável à exposição que, por vezes, pode sim trazer constrangimentos futuros. Algumas vezes, fotos de crianças são divulgadas e alteradas por pessoas mal intencionadas. Isso interfere na maturidade emocional, até causando ansiedade e outros transtornos futuros. Cabe aos pais garantir a preservação do filho”.

Regina ainda frisa que o importante é manter o foco no equilíbrio. “A internet não é uma vilã. Pelo contrário. Usada de forma saudável, valorizando o conhecimento e o aprendizado, é de suma importância na vida das crianças e jovens. O equilíbrio está em não fazer uso dela em um tempo estendido, fazer o gerenciamento desse tempo com monitoramento. É importante, sem dúvida alguma, a atividade socioafetiva, dando condições ao convívio sadio e ético que se deve aprender nas trocas das relações”.

Para a coordenadora pedagógica Tânia Cristina Soterrone, do Centro Educacional Taboão, o avanço tecnológico deve ser acompanhado de conscientização: “A informação e atualização diante dos fatos são ferramentas para a capacitação. Tendo em vista que os professores são formadores de opinião, a atualização e conscientização dos riscos do uso indiscriminado das redes sociais, é pauta constante da rotina escolar, além da aplicação deste contato com o mundo virtual onde o aluno está inserido”.

Em setembro deste ano, a Kaspersky, empresa especialista em cibersegurança, trouxe à tona um relatório apontando que para 93% dos pais brasileiros, a cibersegurança das crianças é uma preocupação. Entre as principais preocupações para os pais estão a privacidade e a segurança das crianças na internet, e 9 em cada 10 crianças com idades entre 7 e 12 anos têm um dispositivo móvel (smartphone ou tablet) conectado à internet. No entanto, segundo a opinião dos próprios pais entrevistados para a realização do estudo, as ciberameaças mais perigosas são: o acesso a conteúdos impróprios, como sexo ou violência (24%); ficarem viciados na internet (31,7%); e receber mensagens ou conteúdo de anônimos incentivando atividades violentas ou impróprias (15%).

Em particular, quase 2 em cada 3 pais brasileiros (66,2%) concordam que os filhos passam tempo demais conectados, ou seja, além de trocar uma parte de suas infâncias para estar na frente da tela, eles também são continuamente expostos a diversos riscos. Para reduzir esses riscos e explicar os perigos de navegar na internet, 75% dos pais brasileiros consideram ser uma responsabilidade conjunta deles e das escolas a instrução para as crianças sobre segurança online. Já a esmagadora maioria (95,5%) acredita que os próprios pais têm melhores condições de fazer isso, já que, em geral, as crianças confiam mais neles.

Em meio a essa pesquisa, em colaboração com a Kaspersky, Emma Kenny, psicóloga conhecida pelo seu trabalho no programa This Morning, da ITV, no qual fornece consultoria especializada, comenta as constatações: “Embora seja totalmente compreensível que os pais não queiram que os filhos tenham medo de usar a internet, é essencial que eles não adotem uma postura displicente em relação à cibersegurança. É fundamental ter equilíbrio, afinal, uma criança informada é uma criança segura”, a psicóloga afirma, e aproveita para acrescentar: “Ao falar sobre cibersegurança e como manter-se seguro na internet, os pais garantem que as crianças possam aproveitar sua vida online ao máximo e, ao mesmo tempo, ficarem despreocupados sobre o comportamento digital delas. As crianças precisam ser protegidas e os pais podem fazer isso. Primeiro, informando-se sobre os sites que os filhos acessam, investindo tempo para ficar com eles enquanto navegam e, segundo, garantindo que tenham uma solução confiável capaz de evitar que as crianças se deparem com material inadequado ou ofensivo”.

Já para Tânia Cristina, “este é um momento onde os pais realmente têm se mostrado preocupados e impactados com a velocidade com que seus filhos são muitas vezes arrebatados pelo mundo virtual, onde proibir não é o melhor caminho, mas diálogo para o uso responsável das tecnologias”.

Por sua vez, Regina Lima acredita que a mãe e o pai atual precisa dar apoio e prevenção no ambiente virtual. “Os pais não devem ter dificuldade em aplicar regras básicas em relação ao uso da internet. É importante se inteirar desse novo universo, que não é tão novo assim, para que possa guiar seu filho nessa nova esfera de relação”, afirma. A psicóloga ressalta que muitos riscos podem ser específicos com o uso de algumas ferramentas, e com outras não: “Por isso todo cuidado é pouco. É importante não divulgar dados pessoais. Não é com isso que não se deve encorajar a criança ou jovem a vivenciar o acesso às informações; pelo contrário, as de boa qualidade enriquecem e geram efeitos positivos, como se tornar responsável e ético com o uso mais seguro das tecnologias digitais”, salienta a especialista.

Em entrevista ao Canaltech, a gerente regional de marketing de consumo da Kaspersky, Juliana Mattozinho, ressalta que existem diferenças entre as consequências da exposição de adultos e de crianças nas redes sociais. “Adultos têm conta bancária, cartão de crédito, programas de milhagem, reputação para compras de serviços online e tudo isso pode ser usado pelo cibercriminoso para monetizar um golpe. As crianças não têm essa relação direta com o dinheiro. Por isso os riscos estão relacionados a futuros problemas. Nossa pesquisa Ressaca Digital mostrou que 39% dos brasileiros admitem postar fotos de seus filhos com poucas roupas. Será que essa pessoa quando adolescente/adulto gostará de ver essas fotos expostas? Hoje as escolas combatem o bullying… se seu filho for vítima dele, ter essas fotos expostas na internet pode complicar a situação. Além disso, filhos são pessoas. Um adulto que posta detalhes da vida do filho pode ser vítima de um golpe personalizado”, explica.

A gerente ressalta que a cibersegurança não é diferente da segurança física da criança e os pais são os responsáveis por ela. “É impossível estar presente 100% do tempo ao lado da criança e as tecnologias de cibersegurança têm a função de assegurar que as regras estabelecidas pelos pais serão seguidas na ausência deles – e em nenhum caso a tecnologia irá substituir a conversa entre pais e filhos para explicar sobre os riscos online e as possíveis consequências de seus atos quando navegam online”. Juliana ainda completa: “Neste sentido, é possível saber se seu filho está realmente na escola usando a função de localização GPS, limitar o tempo de uso do celular/tablet para que a criança possa ter tempos para os estudos e atividades esportivas e garantir que a criança acesse conteúdos apropriados a sua idade”.

A gerente regional de marketing de consumo da Kaspersky conta que as pessoas se sentem “seguras” para falar o que pensam quando estão em frente da tela e não pensam como as palavras serão interpretadas pelo destinatário, então quanto maior a exposição da criança nas redes sociais, maior a chance de ela ter que lidar com críticas e até comentários maliciosos. “É responsabilidade dos pais saber se a criança tem maturidade para lidar com essas situações e também monitorar essa exposição para orientar a criança sobre os riscos – sem falar que os pais precisam estar bem próximos para poder contornar possíveis situações ruins. O mesmo se aplica a adolescentes e adultos. Atos online podem afetar suas vidas reais. Um post falando mal sobre uma empresa pode, no futuro, impedir uma contratação por essa empresa, por exemplo”, afirma.

Caso os pais vejam fotos de seus filhos usadas sem seu consentimento em algum site, o primeiro passo é falar com o site em questão. “Hoje em dia, as escolas já solicitam a permissão dos pais para postar fotos das crianças em suas redes sociais. Caso haja uma mudança de decisão, basta comunicar isso para a escola. Se a foto não for removida, é possível tomar medidas judiciais com base no ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente (uso de imagem não autorizada)”, Juliana finaliza.

Com a exposição excessiva de crianças nas redes sociais, pedófilos podem usufruir desse material digital. Em abril de 2018, por exemplo, o Canaltech levantou essa questão ao perceber no YouTube uma onda de vídeos publicados por usuários brasileiros, que fazem apologia e insinuações à prática de pedofilia. Na época, o YouTube chegou a ser questionado pelo Canaltech, e declarou: “Sabemos que há um desafio para todo esse alcance: pessoas mal-intencionadas que usam nossa plataforma para enganar, manipular, assediar ou mesmo ofender. Reconhecemos que lidar com essas questões de maneira responsável é uma parte crítica e fundamental do papel que desempenhamos na sociedade”.

Em setembro deste ano, o New York Times fez uma reportagem em torno do abuso infantil e de como isso tem se intensificado com a tecnologia. O veículo trouxe que, em 2018, dentre as 18,4 milhões de denúncias feitas contra a pornografia infantil, 12 milhões envolveram o Messenger, do Facebook.

Em muitos perfis públicos do Instagram, há publicações que permitem saber com facilidade quais lugares são frequentados pela criança, como fotos com uniforme escolar, tags que indiquem hábitos, check-ins. Essas informações exigem um cuidado a mais, porque podem ser utilizadas por mal-intencionados. A nossa equipe perguntou para Juliana Mattozinho quais são as chances de um sequestrador ou um pedófilo se aproveitar dessas informações, e obteve a seguinte resposta: “Acreditamos que os mal intencionados utilizam de todas as ferramentas para estudar sobre suas vítimas antes de agir e, para pedófilos ou sequestradores, as redes sociais é uma delas. Não temos estatísticas, mas infelizmente esses casos já acontecem. Recomendamos sempre preservar as crianças dessa exposição”.

Em maio deste ano, um grupo de criminosos em Santa Catarina usou informações divulgadas por uma criança no Facebook para escolher o alvo de um sequestro: Ângelo Antônio de Oliveira, de 9 anos, que havia postado dados sobre ele e sua família na rede social. Os sequestradores exigiram R$ 500 mil para liberar a criança. O crime foi planejado com base em informações pessoais publicadas por Ângelo e seus familiares em redes sociais, uma vez que, nos perfis de membros da família na rede social, havia publicações de fotos de carros de luxo, apartamentos de alto padrão e objetos eletrônicos.

Tendo em mente o que as redes sociais podem fazer para conter essa superexposição, Juliana afirma: “Já fizeram quando lançaram a opção de post limitados apenas para amigos (Facebook) ou perfil privado (Instagram) para citar alguns casos. Mas pense, a preocupação com a segurança dos filhos é de responsabilidade dos pais e não da empresa que criou uma rede social. Se os pais postam esse tipo de foto, tem pouca coisa que a rede social pode fazer”.

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