Sacerdotisa Dora Barreto tem trajetória de luta contra o preconceito racial

”Nunca vai haver um pa?s igualitário e rico se não houver educação para as pessoas. Nós, pretos e pardos, somos 54% da população do país. Não dá para exterminar todos eles” (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press ) “O racista é, antes de qualquer coisa, um covarde. Ele acredita que você não vai ter reação, porque a gente foi educado para não responder, não mentir, não retribuir a ofensa, apenas abaixar a cabeça e chorar. Mas eu sou mulher e aprendi desde cedo que a gente tem que ter reação.” Aos 63 anos, a baiana Dora Barreto mostra que não tem paciência para quem é preconceituoso. A fala firme é reflexo de uma mulher que passou a vida lidando com o racismo e lutando pelo que acredita: geração de oportunidades para a periferia, empoderamento de mulheres, respeito às religiões de matriz africana e, sobretudo, educação.Há 13 anos, ela se tornou sacerdotisa ao fundar o terreiro de candomblé Ilè Asé T’Ojú Labá, em uma área de chácaras do Jardim ABC, bairro do município goiano Cidade Ocidental, a cerca de 39km de Brasília. De lá para cá, mãe Dora de Oyá perdeu as contas de quantos filhos de santo tem. “Aqui por perto e no DF são uns 30. Mas tenho filho em Londres, em São Paulo… Nem sei mais”, conta, com bom humor.Na casa onde mora, reclusa, ajuda diariamente a população da forma que pode. Em um dia, tira quebranto (ou, como ela explica, desequilíbrio de energias) de um bebê. No outro, benze para consertar a espinhela caída (doença caracterizada por forte dor nas costas, no estômago e nas pernas) de uma criança. Com frequência, consegue dinheiro para famílias sem gás em casa há uma semana ou prepara almoço para a mãe de três crianças sem comer há dias.A missão de ajudar nasceu com ela. Desde os 5 anos, ouvia do bisavô, um famoso rezador da cidade baiana de Riachão das Neves, que cuidaria de muita gente. Com ele, Dora aprendeu a rezar e a benzer, sempre participando das procissões para as quais ele era chamado. Com a bisavó, uma índia Pataxó Hã-Hã-Hãe, descobriu o poder das ervas medicinais. Anos mais tarde, o conhecimento seria fundamental para o trabalho como mãe de santo.Aos 6 anos, ficou órfã de mãe. Um ano mais tarde, perdeu também o bisavô. Aquilo a deixou tão abalada que a fez cogitar o suicídio. “Eu subi em um pé de manga e estou lá dando o nó para me pendurar, quando aconteceu a primeira manifestação espiritual da minha vida. Meu Caboclo Ventania apareceu na minha frente e me deu um esbregue danado dizendo: desça daí, porque você tem muita gente para cuidar.”A entidade é conhecida na umbanda e no candomblé pela figura de um índio, filho de um grande pajé. Seu Ventania, como é carinhosamente chamado pela mãe de santo, acompanha Dora desde o primeiro episódio, levando a ela as mensagens de Iansã (ou Oyá), a orixá dos ventos e dos raios. “Foi a figura que norteou a minha vida, que me ensinou o que é hombridade, honradez, o que é caminhar pelo caminho direito.”Missão Nos anos 1970, Dora, o pai e as irmãs se mudaram para a QNJ 47 de Taguatinga. Na cidade, recebeu as primeiras indicações de que seria mãe de santo, com as aparições constantes do Caboclo Ventania. Apesar disso, ela conta que por muito tempo fugiu do chamado. A princípio, por medo. Depois, por não querer abandonar a vida de luxo que levava. “Eu era fisioterapeuta dermatofuncional. Tive um consultório por 10 anos, podia trocar de carro todo ano e fazia a unha duas vezes por semana.” Não queria deixar tudo de lado e recomeçar a vida na roça.Só depois de duas lesões nas clavículas, que a obrigaram a passar por cirurgia, ela decidiu que abriria o terreiro. “Em uma noite, sonhei com alguém dizendo para mim: ‘Na terra que vou lhe dar, ninguém passa fome. Lá, tem uma casa amarela com cinco pilastras.’ Na manhã seguinte, com febre, ela acordou com a ligação de um amigo lhe dizendo sobre uma propriedade à venda próximo ao Jardim ABC. “Quando cheguei aqui, a casa era amarela e tinha cinco pilastras.” Diante disso, ela comprou o lote onde atualmente funciona o terreiro. No local, mangueiras, bananeiras, goiabeiras e outras árvores se revezam, garantindo que sempre haja fruta de sobra.Educação Nem só pelo louvor funciona o terreiro. Buscando oferecer oportunidades para a comunidade, mãe Dora criou o projeto ABC Musical, que ensina música a crianças e adolescentes da periferia. Alguns dos jovens que por lá passaram hoje estudam na Escola de Música de Brasília (EMB). Há três anos, criou também o Afoxé Ogum Pá, manifestação cultural e também musical. Recentemente, o grupo se apresentou na abertura do festival Favela Sounds.Mas o grande sonho da sacerdotisa é abrir uma escola para atender às crianças do Jardim ABC. “Nunca vai haver um país igualitário e rico se não houver educação para as pessoas. Nós, pretos e pardos, somos 54% da população do país. Não dá para exterminar todos eles”, reforça. “Essa política de extermínio é a mais burra que existe. Como você vai exterminar a mão de obra que faz o país crescer?”, questiona.Para ela, o 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, é pouco para lembrar da população que é base da sociedade brasileira. “Onde estão esses negros do Brasil todo? Na periferia. Estão aqui, no Jardim ABC, sendo mortos todos os dias pela polícia. A gente é empurrado para a periferia. As crianças são empurradas para a criminalidade.”Preconceitos Aos 8 anos, Dora viveu os primeiros episódios de racismo, ainda sem entender o que se passava. “Os vizinhos não queriam que os filhos deles brincassem com a gente. De tardezinha, estava todo mundo jogando na rua, mas, quando eu e meus irmãos chegávamos, as mães mandavam a criançada ir para casa”, recorda. A solução para não deixar a diversão morrer foi montar em casa um time de dominó.Na escola, não era diferente. “As crianças faziam bullying o tempo todo, e eu saía no braço para defender os meus irmãos”, afirma. Adulta, a tristeza que sentia tornou-se indignação. Ela lembra de uma tarde costurando na varanda de casa, quando um homem com uma Bíblia sob o braço, parado no portão do terreiro, gritava ofensas em um megafone.Acompanhado de uma comitiva, ele a chamava de mulher do demônio. A reação foi instantânea: “Nesse dia, eu fiquei brava. Quando eu vi,  tinha voado no homem. Catei pelo terno e falei um montão de coisa. Disse que no dia que ele cruzasse meu caminho, era para tomar cuidado, porque eu daria um pau nele”, ri Dora. É de cabeça erguida que ela enfrenta injustiças. “Claro que tenho medo da retaliação, sou humana. Tenho medo de queimarem a minha casa, de fazerem algo com a minha família, com meus filhos de santo. Mas não tenho medo do debate; aliás, adoro. No nível das ideias, quero ver alguém me dobrar.”Especial Para marcar o Mês da Consciência Negra, a série Histórias de consciência é publicada ao longo de novembro e presta homenagem a mulheres e homens negros que ajudam a construir uma Brasília justa, tolerante e plural. Todos os perfis deste especial e outras matérias sobre o tema podem ser lidos no site www.correiobraziliense.com.br/ historiasdeconsciencia. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *