Coronavírus: como seria o mundo se todos os vírus desaparecessem?

<div class="media_box full-dimensions660x360">

<div class="edges">
<img class="croppable" src="https://img.r7.com/images/virus-29062020175652883?dimensions=660×360" title="As coisas boas que os vírus fazem superam as más, segundo o epidemiologista Tony Goldberg" alt="As coisas boas que os vírus fazem superam as más, segundo o epidemiologista Tony Goldberg" />
<div class="gallery_link">
</div>

</div>
<div class="content_image">
<span class="legend_box ">As coisas boas que os vírus fazem superam as más, segundo o epidemiologista Tony Goldberg</span>
<span class="credit_box ">Getty Images </span>
</div>
</div>

<p>
Diante de uma pandemia, pode-se pensar que os vírus existam com o único propósito de criar caos na sociedade e de fazer a humanidade sofrer.</p>
<p>
Eles ceifaram um número incalculável de vidas durante milênios, eliminando com frequência grandes setores da população mundial, desde a epidemia de influenza de 1918 que matou entre 50 e 100 milhões de pessoas aos 200 milhões que morreram de varíola só no século 20.</p>
<p>
A atual pandemia de covid-19 é só mais uma de uma série de contínuos e intermináveis ataques virais.</p>
<p>
Se existisse a possibilidade de fazê-los desaparecerem com uma varinha mágica, a maioria das pessoas provavelmente abraçaria essa oportunidade, ainda mais agora.</p>
<p>
No entanto, seria um erro fatal — mais letal, na verdade, do que poderia ser qualquer vírus.</p>
<p>
"Se todos os vírus desaparecessem repentinamente, o mundo seria um lugar maravilhoso por cerca de um dia e meio, e logo morreríamos. Esse seria o resultado final", diz Tony Goldberg, epidemiologista da Universidade de Wisconsin-Madison.</p>
<p>
"Todas as coisas essenciais que eles fazem no mundo superam em muito as más."</p>

<div class="media_box embed intertitle_box">

<div class="content">Visão equilibrada

</div>
<span class="author"></span>
</div>

<p>
A grande maioria dos vírus não são agentes patogênicos para os humanos, e muitos cumprem um papel importante na manutenção dos ecossistemas.</p>
<p>
Outros mantêm a saúde de organismos individuais, desde fungos e plantas até insetos e humanos.</p>
<p>
"Vivemos em um equilíbrio perfeito" e os vírus são parte disso, diz Susana López Charretón, virologista da Universidade Nacional Autônoma do México.</p>
<p>
"Acho que estaríamos acabados sem os vírus."</p>

<div class="media_box full-dimensions660x360">

<div class="edges">
<img class="croppable" src="https://aifone.com.br/wp-content/uploads/2020/06/oceano-29062020175653030" title="Os vírus contribuem para manter o equilíbrio dos ecossistemas" alt="Os vírus contribuem para manter o equilíbrio dos ecossistemas" />
<div class="gallery_link">
</div>

</div>
<div class="content_image">
<span class="legend_box ">Os vírus contribuem para manter o equilíbrio dos ecossistemas</span>
<span class="credit_box ">Getty Images</span>
</div>
</div>

<p>
A maioria das pessoas não tem consciência do papel que os vírus desempenham na manutenção de grande parte da vida na Terra, porque temos a tendência de focar apenas nos problemas que eles causam à humanidade.</p>
<p>
Quase todos os virologistas estudam apenas os agentes patogênicos; só recentemente uns poucos pesquisadores intrépidos começaram a investigar os vírus que nos mantêm vivos e também o nosso planeta, em vez de nos matar.</p>
<p>
"É um pequeno grupo de cientistas que tentam dar uma visão justa e equilibrada do mundo dos vírus e mostrar que existem vírus bons", diz Goldberg.</p>
<p>
Cientistas têm certeza de que, sem os vírus, a vida no planeta, tal como a conhecemos, deixaria de existir.</p>
<p>
E mesmo que quiséssemos, provavelmente seria impossível aniquilar todos os vírus da Terra. Mas ao imaginar como seria o mundo sem eles, podemos entender melhor não só o quão importantes eles são para a nossa sobrevivência como também quanto temos que aprender ainda com sobre eles.</p>

<div class="media_box embed intertitle_box">

<div class="content">Quantos existem?</div>
<span class="author"></span>
</div>

<p>
Para começar, não se sabe nem sequer quantos vírus existem. Milhares foram classificados formalmente, mas podem ser milhões.</p>
<p>
"Descobrimos apenas uma fração porque ainda não buscamos muito", diz Marilyn Roossinck, ecologista de vírus da Penn State University, nos Estados Unidos.</p>
<p>
"É apenas um viés — a ciência só tem se interessado por agentes patogênicos."</p>

<div class="media_box full-dimensions660x360">

<div class="edges">
<img class="croppable" src="https://aifone.com.br/wp-content/uploads/2020/06/paisagem-29062020175653171" title="Há milhões de vírus desconhecidos no mundo que a ciência só agora está começando a descobrir" alt="Há milhões de vírus desconhecidos no mundo que a ciência só agora está começando a descobrir" />
<div class="gallery_link">
</div>

</div>
<div class="content_image">
<span class="legend_box ">Há milhões de vírus desconhecidos no mundo que a ciência só agora está começando a descobrir</span>
<span class="credit_box ">Getty Images </span>
</div>
</div>

<p>
Os pesquisadores ainda nem sabem qual o percentual total de vírus que são problemáticos para os seres humanos.</p>
<p>
"Se você pensa numericamente, (o percentual) estaria estatisticamente perto de zero", diz Curtis Suttle, virologista ambiental da Universidade de British Columbia.</p>
<p>
"Quase todos os vírus que andam por aí não são agentes patogênicos para as coisas que mais importam."</p>

<div class="media_box embed intertitle_box">

<div class="content">Chave para os ecossistemas</div>
<span class="author"></span>
</div>

<p>
O que sabemos é que os fagos — os vírus que contaminam bactérias — são extremamente importantes.</p>
<p>
Seu nome vem do grego <em>phagein</em>, que significa devorar. E é isso que eles fazem.</p>
<p>
"São os maiores predadores do mundo bacteriano", diz Goldberg.</p>
<p>
"Os fagos são os reguladores primários das populações bacterianas no oceano e provavelmente em muitos ecossistemas do planeta também."</p>
<p>
Se os vírus desaparecessem de repente, algumas populações bacterianas cresceriam desproporcionalmente; outras poderiam ser vencidas e deixarem de crescer por completo.</p>
<p>
Isso seria particularmente problemático nos oceanos, onde mais de 90% de toda a vida é bacteriana.</p>

<div class="media_box full-dimensions660x360">

<div class="edges">
<img class="croppable" src="https://aifone.com.br/wp-content/uploads/2020/06/oceano-29062020175653329" title="Os fagos são encarregados de manter o equilíbrio da vida bacteriana nos oceanos" alt="Os fagos são encarregados de manter o equilíbrio da vida bacteriana nos oceanos" />
<div class="gallery_link">
</div>

</div>
<div class="content_image">
<span class="legend_box ">Os fagos são encarregados de manter o equilíbrio da vida bacteriana nos oceanos</span>
<span class="credit_box ">Getty Images
</span>
</div>
</div>

<p>
Esses micróbios produzem cerca da metade do oxigênio do planeta, um processo facilitado pelos vírus.</p>
<p>
Estes vírus matam, por dia, cerca de 20% de todos os micróbios oceânicos, e cerca de 50% de todas as bactérias oceânicas.</p>
<p>
Ao eliminar os micróbios, os vírus garantem que o plâncton produtor de oxigênio tenha nutrientes suficientes para sustentar altas taxas de fotossíntese, a qual, em última instância, permite que se mantenha grande parte da vida na Terra.</p>
<p>
"Se não existe morte, então não existe vida, porque esta depende completamente da reciclagem de materiais", explica Suttle.</p>
<p>
"Os vírus são importantes em termos de reciclagem."</p>

<div class="media_box embed intertitle_box">

<div class="content">Poucas espécies

</div>
<span class="author"></span>
</div>

<p>
Pesquisadores que estudam pragas de insetos descobriram que os vírus são críticos para o controle de população de espécies. Se uma determinada espécie cresce em excesso "aparecerá um vírus e os eliminará", explica Roossinck.</p>
<p>
Este processo, chamado de "matar o vencedor" ("kill the winner", em inglês), é comum entre outras espécies, incluindo a nossa, como mostram as pandemias.</p>
<p>
"Quando as populações se tornam muito abundantes, os vírus precisam se replicar muito rapidamente e reduzem a população, criando espaço para que tudo mais possa viver", diz Suttle.</p>
<p>
Se os vírus desaparecessem, é provável que as espécies competitivas floresceriam em detrimento das demais.</p>

<div class="media_box full-dimensions660x360">

<div class="edges">
<img class="croppable" src="https://aifone.com.br/wp-content/uploads/2020/06/biodiversidade-29062020175653471" title="Devemos agradecer aos vírus pela biodiversidade do planeta" alt="Devemos agradecer aos vírus pela biodiversidade do planeta" />
<div class="gallery_link">
</div>

</div>
<div class="content_image">
<span class="legend_box ">Devemos agradecer aos vírus pela biodiversidade do planeta</span>
<span class="credit_box ">Getty Images </span>
</div>
</div>

<p>
"Rapidamente perderíamos muita da biodiversidade do planeta", diz Suttle. "Umas poucas espécies tomariam controle e expulsariam o resto."</p>
<p>
Alguns organismos também dependem dos vírus para sobreviver, ou que lhes forneçam alguma vantagem em um mundo competitivo.</p>
<p>
Cientistas acreditam, por exemplo, que os vírus cumprem um papel importante em ajudar as vacas e outros ruminantes a transformar a celulose do pasto em açúcares que podem se metabolizar e, em última instância, se transformar em massa corporal e leite.</p>
<p>
Também acreditam que os vírus são fundamentais para manutenção de um microbioma são nos humanos e em outros animais.</p>
<p>
"Ainda não se entende isso muito bem, mas estamos encontrando mais e mais exemplos de que esta interação próxima é uma parte crítica dos ecossistemas, seja no sistema humano ou ambiental", explica Suttle.</p>
<p>
Roossinck e seus colegas descobriram evidências concretas que apoiam esta teoria.</p>
<p>
Em uma pesquisa, eles examinaram um fungo que coloniza um tipo específico de pasto no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos. Eles descobriram que o vírus que infecta esse fungo permite que o pasto se torne tolerante às temperaturas geotermais do solo.</p>
<p>
"Quando os três estão ali — o vírus, o fungo e a planta — a planta pode crescer em solos realmente quentes", diz Roossinck. "O fungo sozinho não faz isso.</p>

<div class="media_box full-dimensions660x360">

<div class="edges">
<img class="croppable" src="https://aifone.com.br/wp-content/uploads/2020/06/parque-nacional-yellowstone-29062020175653616" title="Os vírus permitem que o pasto que cresce no Parque Nacional Yellowstone possa aguentar altas temperaturas geotermais" alt="Os vírus permitem que o pasto que cresce no Parque Nacional Yellowstone possa aguentar altas temperaturas geotermais" />
<div class="gallery_link">
</div>

</div>
<div class="content_image">
<span class="legend_box ">Os vírus permitem que o pasto que cresce no Parque Nacional Yellowstone possa aguentar altas temperaturas geotermais</span>
<span class="credit_box ">Getty Images
</span>
</div>
</div>

<p>
A pesquisadora e sua equipe descobriram que as plantas e o fungo passam o vírus de geração em geração. Ainda que não entendam exatamente a função que isso cumpre, eles assumem que os vírus, de alguma maneira, devem estar ajudando seus anfitriões.</p>
<p>
"Se não fosse assim, para que eles ficariam nas plantas?", pergunta Roossinck. Se todos esses vírus benignos desaparecessem, as plantas e os outros organismos que as alojam ficariam mais fracos ou morreriam.</p>

<div class="media_box embed intertitle_box">

<div class="content">Proteção para os humanos

</div>
<span class="author"></span>
</div>

<p>
Infecções com certos vírus benignos podem ajudar inclusive a proteger os humanos de alguns agentes patogênicos.</p>
<p>
O vírus GB-C, um agente não-patogênico que é parente próximo do vírus do Nilo Ocidental e da dengue, está ligado à progressão tardia da aids nas pessoas com HIV.</p>
<p>
Cientistas descobriram também que o vírus GB-C faz com que as pessoas contaminadas com ebola sejam menos propensas a morrer.</p>
<p>
Da mesma maneira, a herpes faz com que os ratos sejam menos suscetíveis a certas infecções bacterianas, incluindo a peste bubônica e a listeria (um tipo comum de intoxicação alimentar).</p>
<p>
Os autores suspeitam que suas descobertas em roedores se aplicam a seres humanos.</p>
<p>
Enquanto infecções com vírus de herpes "são vistas unicamente como de agentes patogênicos", dizem os pesquisadores, os dados mostram que a herpes entra na verdade em uma "relação simbiótica" com seu anfitrião, dando a ele benefícios imunológicos.</p>
<p>
Sem vírus, nós e outras espécies poderíamos ser muito mais inclinados a morrer de outras doenças.</p>

<div class="media_box embed intertitle_box">

<div class="content">Tratamentos

</div>
<span class="author"></span>
</div>

<p>
Os vírus são também um dos agentes terapêuticos mais promissores para tratar certas doenças. A fagoterapia utiliza o vírus para atacar infecções bacterianas.</p>

<div class="media_box full-dimensions660x360">

<div class="edges">
<img class="croppable" src="https://img.r7.com/images/virus-29062020175653907?dimensions=660×360" title="A fagoterapia utiliza o vírus para tratar infecções bacterianas
" alt="A fagoterapia utiliza o vírus para tratar infecções bacterianas
" />
<div class="gallery_link">
</div>

</div>
<div class="content_image">
<span class="legend_box ">A fagoterapia utiliza o vírus para tratar infecções bacterianas
</span>
<span class="credit_box ">Getty Images

</span>
</div>
</div>

<p>
Este é um campo que agora, com a crescente resistência aos antibióticos, está começando a crescer.</p>
<p>
"Muitas vidas estão sendo salvas usando o vírus onde os antibióticos estão falhando", diz Suttle.</p>
<p>
Cientistas também estão estudando os vírus oncolíticos, aqueles que infectam e destroem seletivamente as células cancerígenas, como um tratamento menos tóxico e mais eficiente contra o câncer.</p>
<p>
Como eles se replicam e sofrem mutações constantemente, os vírus contam com um repositório massivo de inovações genéticas que outros organismos podem incorporar.</p>
<p>
Os vírus se replicam inserindo-se dentro das células anfitriãs e sequestrando suas ferramentas de replicação.</p>
<p>
Se isso acontece em uma linha germinal (óvulos e esperma), o código viral pode passar de geração para geração e se integrar permanentemente.</p>
<p>
"Todos os organismos que podem ser infectados por vírus têm a oportunidade de absorver genes virais e usá-los a seu favor", explica Goldberg.</p>
<p>
"A inserção do novo DNA em genomas é um grande modo de evolução."</p>
<p>
O desaparecimento dos vírus, em outras palavras, impactaria o potencial evolutivo de toda a vida no planeta, incluindo o <em>Homo sapiens</em>.</p>
<p>
Os elementos virais representam aproximadamente 8% do genoma humano e os genomas dos mamíferos em geral incluem cerca de cem mil restos de genes que se originam a partir de vírus.</p>
<p>
O código viral se manifesta em geral como peças inertes de DNA, mas às vezes cumprem funções novas e úteis — inclusive essenciais.</p>
<p>
Em 2018, por exemplo, equipes de pesquisadores fizeram, de forma independente entre si, uma descoberta fascinante.</p>
<p>
Um gene de origem viral codifica uma proteína que desempenha um papel-chave na formação da memória de longo prazo, movendo informações entre células no sistema nervoso.</p>
<p>
O exemplo mais impactante, no entanto, tem a ver com a evolução da placenta dos mamíferos e no momento em que se expressam os genes na gravidez humana.</p>

<div class="media_box full-dimensions660x360">

<div class="edges">
<img class="croppable" src="https://aifone.com.br/wp-content/uploads/2020/06/gravida-29062020175654070" title="A gravidez humana também poderia ser resultado do efeito dos vírus há milhões de anos" alt="A gravidez humana também poderia ser resultado do efeito dos vírus há milhões de anos" />
<div class="gallery_link">
</div>

</div>
<div class="content_image">
<span class="legend_box ">A gravidez humana também poderia ser resultado do efeito dos vírus há milhões de anos</span>
<span class="credit_box ">Getty Images
</span>
</div>
</div>

<p>
As evidências sugerem que somos vivíparos graças a um código genético que foi cooptado de antigos retrovírus que infectaram nossos antepassados há mais de 130 milhões de anos.</p>
<p>
Como disseram os autores do estudo publicado em 2018 na revista científica PLOS Biology: "É tentador especular que a gravidez humana seria muito diferente — talvez inexistente — se não fosse por eras de pandemias retrovirais que afetaram nossos ancestrais".</p>
<p>
Especialistas acreditam que estas marcas distintas ocorrem em todas as formas de vida multicelular.</p>
<p>
"Provavelmente existem muitas funções que desconhecemos", afirma Suttle.</p>
<p>
Cientistas acreditam que só começamos agora a descobrir como os vírus ajudam a sustentar a vida, porque acabamos de começar a estudá-los.</p>
<p>
Em última instância, quanto mais aprendemos sobre todos os vírus, não só dos agentes patogênicos, melhor equipados estaremos para utilizar alguns vírus em nosso benefício e desenvolver defesas contra outros que poderiam dar lugar a uma próxima pandemia.</p>
<p>
Mais que isso, aprender mais sobre a riqueza da diversidade viral nos ajudará a entender com mais profundidade como funcionam o nosso planeta, o ecossistema e nossos corpos.</p>
<p>
Como disse Suttle: "Precisamos dedicar nossos esforços para tratar de entender o que há lá fora para o nosso próprio benefício".</p>
<p>
*<em>Esta reportagem foi publicada originalmente na BBC Future.</em></p>
<p>
 </p>
<p>
 </p>

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *