Fechada desde o dia 18 de março deste ano, quando começava a disseminação do coronavírus na Bahia, a Universidade Federal da Bahia (Ufba) pode ter um plano de retomada apresentado na próxima semana. “Estamos no momento de mobilizar a retomada, para que ela seja bem debatida e ocorra da melhor maneira”, disse o reitor João Carlos Salles, em entrevista ao CORREIO. O retorno, se possível, será online e a universidade tenta conseguir recursos para garantir o acesso de todos os alunos – em média, cursos de graduação e pós-graduação têm 44.658 estudantes. 

No início da interrupção, questionários aplicados pela Ufba escancaram o abismo social dentro da universidade: mais de 50% dos alunos não têm acesso a tecnologias digitais – de computadores a internet de qualidade. O retorno das aulas presenciais, antes de haver respaldo científico, está completamente descartado. O Ministério da Educação anunciou, na última quarta-feira (1º), que oferecerá acesso à internet a estudantes de universidades e instituições federais. O plano de implementação ainda não foi divulgado.

“Nós temos que prezar por uma certa isonomia e não podemos excluir os que já são e estão excluídos”, afirmou João Carlos. 

Leia ao especial Cérebros da Ufba, com os 20 pesquisadores 1A da universidade

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

O reitor – filósofo e mestre em Ciências Sociais pela própria Ufba e doutor em Filosofia pela Universidade de Campinas –  e professor da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) conversou também sobre como a  manutenção da produção científica e o impacto do clima anticientífico, depois de uma série de cortes orçamentárias.

“Nesse momento, as universidades também estão na linha de frente”, afirmou. 

A entrevista a seguir foi dividida em duas partes: uma realizada presencialmente no dia 5 de março, na Reitoria, um dia antes do primeiro caso confirmado da covid-19 na Bahia e outra por ligação, na última segunda-feira (29). O reitor discute a retomada da Ufba, os ataques à ciência e às universidades, como a pandemia reconfigurou a forma de produção, problemas históricos a serem superados e qualidades a serem avivadas. “O Congresso da Ufba deste ano, por exemplo. Foi o maior congresso digital do país. Fizemos tudo isso nesse meio tempo”, defendeu.

Confira na íntegra:  

CORREIO: Temos acompanhado uma série de polêmicas e discussões sobre o retorno de aulas presenciais ainda neste ano. A Ufba tem se preparado para a volta?

João Carlos Salles: Acredito que a pandemia explicitou, ainda mais, uma realidade de extrema exclusão e desigualdades sociais. No início da nossa paralisação [em março] aplicamos questionários que deixaram evidente que mais de 50% dos alunos não têm acesso a tecnologia digital – desde computadores a acesso de internet. Queríamos identificar como estava a comunidade e quais eram as possibilidades. Nós temos que prezar por uma certa isonomia e não podemos excluir os que já são e estão excluídos. E há também um segundo traço: temos que preservar a excelência das universidades e de suas atividades, que são basicamente presenciais.

Agora, estamos numa fase de tentar verificar como podemos ajudar os estudantes. No momento em que essa matéria for veiculada, os questionários já estarão nas ruas. Nós queremos saber como podemos ajudar os estudantes para identificar uma retomada eventual à distância. Sabemos que precisamos de recursos para que isso aconteça e já estamos em diálogo e em busca de caminho. Também vamos fazer um questionário voltado mais para os docentes, que precisam de um letramento digital para aplicar a tecnologia em aulas. Vamos perguntar, também, como está o trabalho dos técnicos, como eles estão enfrentando o trabalho. Não queremos precarizar o trabalho. 

Ou seja, nós estamos, nesse momento, tentando produzir uma proposta de retomada que será submetida a instâncias e abrimos um canal com a comunidade para identificar problemas para uma retomada eventual. Então, estamos no momento de mobilizar a retomada, para que ela seja bem debatida e ocorra da melhor maneira.

Agora, cabe à universidade entender que só com segurança e a partir da ciência poderemos voltar plenamente. Estamos trabalhando para um novo plano. Na próxima semana, apresentaremos um projeto [de retomada] e acreditamos que isso signifique que chegaremos a um modelo de retomada, de uma nova solução. 

As universidades públicas, como o senhor pontuou, vinham de uma série de ataques e cortes. Agora, como ficou a produção científica? 
Das universidades públicas têm partido as melhores respostas científicas em relação às perguntas feitas hoje. Nesse momento, as universidades também estão na linha de frente. A Ufba está fazendo um esforço muito grande para criar pesquisar específicas dedicadas ao coronavírus.

Como equipamentos públicos, elas estariam lidando ainda melhor se não tivessem sofrido tanto ataques. Evidentemente, tomamos a providência imediata de suspensão de atividades acadêmicas e atendemos a recomendações sanitárias. A vida não entra em nenhum cálculo e não pode ser quantificada. As universidades suspenderam suas atividades, vivemos hoje várias indefinições, pela falta de unidade no tratamento da epidemia.

Mas as atividades científicas foram mantidas, como possível, os laboratórios continuam pesquisando, os grupos de pesquisa têm feito reuniões. O diagnóstico de como isso foi feito só será feito posteriormente, porque a produção é uma constante. A universidade não parou, continuamos trabalhando. É essencial percebermos isso.

Veja, o Congresso da Ufba deste ano, por exemplo. Foi o maior congresso digital do país, atingimos 38 mil inscritos. Fizemos tudo isso nesse meio tempo.

O clima anticientífico tem embarreirado essa produção? 
Existem duas estratégias distintas: uma que preza pelo conhecimento e procura dimensionar exatamente o número de casos, como nossas populações são diversamente atingidas; e outra que ignora os efeitos e se baseia mais em política que em ciência. O anticientificismo tem se transformado em projeto político. É desastroso que haja essa divisão e que essa postura negacionista ataque a ciência e atinja os ambientes de conhecimento.

O governo, com seu viés ideológico, parece se afastar das questões básicas. Há ações concretas, há apoios que são dados, mesmo que soframos ataques. Mas temos recebido discursos de ataques e de apoio.

O que é importante é que há uma disputa de narrativa para que a dimensão da universidade pública não se perca. Fazer previsões de como a ciência sairá disso pode ser temerário. Essa situação extrema não pode ser uma oportunidade para atacar a ciência, nem deixar de compreender a importância dela. Esperamos que essas condições extremas não signifiquem um passo a mais no desmonte das universidades públicas, mas uma possibilidade de termos a arte de nos reinventar.

O clima anticientífico também vem acompanhado de ataques aos servidores públicos. Por que o servidor público tem sido tão atacado?
É interessante que na literatura nacional sempre houve uma caricatura do servidor público, apontado como um barnabé, alguém que tem um salário que talvez não se justifique, que é preguiçoso e burocrático. Essa face caricatural pode flagrar até alguns personagens, mas não mostra a essência do que é ser servidor público. O servidor público é responsável pela presença do Estado nas nossas comunidades, por defender certos valores que independem do governo.

Por isso mesmo ele precisa ter estabilidade, não pode temer sua saída com a mudança de novos governantes. É bom lembrar que aqueles que atacam o servidor público estão atacando também a presença do Estado. Mas, o Estado significa também saneamento, significa o Sistema Único de Saúde (SUS), significa educação, significa uma série de ações que não devem ser transferidas para entes privados. 

O senhor é conhecido como uma pessoa do diálogo. Isso pode causar incompreensões e críticas. Nesse momento, o diálogo tem sido tomado como sinônimo de conservadorismo? 
Não sei como isso será interpretado. Mas, primeiro, sou servidor público, tenho obrigações de dialogar com todos para proteger a instituição. Não posso me melindrar, não tenho direito. Tenho obrigações de decoro, de respeito ao outro, e isso está no código de conduta do servidor. É um documento que deve ser considerado, hoje, subversivo.

Estamos vivendo um tempo em que as pessoas não respeitam o outro, não mantém a dignidade do cargo – e isso não é uma postura elitista, porque mostra que o servidor representa valores da instituição. Eu acho que o diálogo protege a instituição.

A democracia não é automática, se constrói. Você tem que fazer com que as pessoas que participem do diálogo, por exemplo, tenham condições de ter seus argumentos ouvidos e de fundamentar suas opiniões. A postura do diálogo, para mim, não é somente uma inclinação psicológica, mas uma obrigação. 

Quando se candidatou a reitor, o que queria manter e mudar na Ufba? 
Minha candidatura resulta de um certo diagnóstico da Ufba de que havia um certo esvaziamento de um espaço político de reflexão sobre a universidade e que essa dimensão poderia ser recuperada conjuntamente com a reflexão sobre o papel da universidade junto à sociedade. Eu diria que a conjunção é a chave. Não são ideias e projetos que deveriam estar separados  e eu acredito que estavam.

O propósito é que tudo isso estivesse conciliado à melhoria das políticas de inclusão dos estudantes, de melhoria das condições da comunidade democrática e acadêmica e por aí vai. 

Qual ponto não estava conectado?
Disposição de avivar na universidade essa sua condição de ser uma instância reflexionante, que se debruça sobre si mesma, que examina suas potencialidades, que mobiliza as comunidades. O que está em jogo? Uma certa compreensão desse lugar da universidade. Algumas características distinguem a universidade pública e devem ser avivadas. O que é esse espaço? Um espaço de confrontação de gerações, de saberes – não cabem projetos unilaterais, bilaterais, que visem somente certas áreas, porque temos excelência em todas as áreas.

Não dá para dividir a universidade em castas. Fazer com que isso não seja apenas uma dimensão burocrática, mas uma dimensão de multiplicidade é o propósito para caminharmos

Eu diria que identificava dois déficits antes de entrar: o de representação e de representatividade. Como essa instituição carrega nela a composição do seu povo, dos seus alunos? Era muito importante, e é, que esse déficit fosse superado. Ou seja, a Ufba deve compreender que seu enegrecimento é uma forma de enriquecimento e de representativade. O contexto só trouxe componentes inesperados entre nosso pleito para sermos gestores e a vida política.

Logo que chegamos encontramos, por exemplo, um déficit orçamentário, depois, enfrentamos uma turbulência política enorme com o impeachment, depois um governo plenamente hostil, e agora a pandemia. Esses elementos não estavam previstos.

O senhor já comentou que as ‘miudezas’ também comprometem as universidades. Quais são as miudezas que mais incomodam?
Diversas. Me incomoda, por exemplo, ver casos de sofrimento e adoecimento da nossa comunidade, de ver estudantes que enfrentam dificuldade para estar na universidade e não conseguimos superar essas vulnerabilidades. A comunidade estudantil e de técnicos e docentes, também, tem se medicalizado de maneira exagerada, por conta do sofrimento psíquico, do desgaste da vida e dos ambientes.

Podem ser miudezas, pode ser, mas procuro estar atento, como se eu fosse uma ouvidoria que pode agir. Mas nem sempre posso.

Evidentemente, o estudante é mais vulnerável nessa questão. Ele tem um vínculo instável e transitório com a universidade e pode não encontrar amparo nem dentro, nem fora da universidade. Quando o ambiente deveria ser de colaboração, a gente pode perceber o contrário. E isso às vezes é exacerbado pela falta de recursos.

A palavra chave da universidade tem que ser acolhimento. Mas as universidades não são só mazelas. Estou destacando miudezas que imediatamente não podemos responder, mas a universidade é, historicamente, um ser ambíguo, tem miudezas e maravilhas. 

O Bacharelado Interdisciplinar tem sido citado como uma dessas ‘maravilhas’, mas ainda faltam entrega de obras e uma plena inclusão desses estudantes, como os próprios denunciam. O que falta para o BI deslanchar? 
Eu acho que nós temos que enfrentar algumas questões. Uma é de espaço, fazer com que o prédio esteja de fato disponível. Essa dificuldade estrutural enfrentamos e esperamos enfrentar para entregar logo o prédio. Acho que será muito bom para o convívio e boas condições de trabalho. Mas há outros desafios. Por exemplo, em relação à transição desses cursos para outros cursos de progressão linear. Acho que temos que pensar, sobretudo, no desgaste causado em cursos de grande competitividade.

Competição no BI de Saúde leva a boicotes entre colegas, mentiras e depressões (Foto: Arquivo CORREIO/Betto Jr.)

A luta que o estudante trava para conseguir uma vaga em Medicina – sobretudo Medicina, mas há outros também, como Direito – faz com que o BI deixe de cumprir uma das funções básica da universidade: a colaboração acadêmica. A competição não pode prevalecer sobre a colaboração. Se ela prevalece, há adoecimento de alunos, de professores que são pressionados em função das notas, como se as notas fossem maiores que o conhecimento. Não pode ser assim.

A universidade só é sadia se o conhecimento prevalece sobre o score.

Se as relações de desenvolvimento prevalecem, é nesse sentido que temos uma comunidade de cidadãos. Os estudantes não são clientes em disputa por recursos. O BI é fundamental, uma porta interdisciplinar, e não apenas disciplinar. Mas ele precisa ser cuidado em infraestrutura e na parte acadêmica de tal forma que a transição seja mais tranquila, bem feita e as relações sejam mais saudáveis no espaço da instituição.

Os professores entendem essas realidades múltiplas dos alunos?
Esse é um trabalho constante. É bom lembrar que a universidade, ao mesmo tempo que precisa ter sensibilidade, também tem metas acadêmicas. Encontrar o justo meio entre essas duas dimensões é um desafio que exige sensibilidade e esforço. Mas não há resposta simples. Não seria correto demonizar o professor, porque fez cobranças, porque digamos, e eu só posso supor isso, elas não foram feitas como ato perverso, mas visando a certos padrões de exigência acadêmica.

Mas é bom lembrar que houve uma mudança muito radical na conformação dos estudantes. Tempos atrás, não há muitas décadas, todo corpo de alunos morava, sobretudo, em bairros privilegiados de Salvador. Essa não é mais a realidade e é bom que não seja.

Por não ser assim, nós temos uma série de estudantes que não têm a mesma condição favorável de se dedicar exclusivamente ao aprendizado, sem obstáculos

O déficit de representatividade significa que o acesso foi permitido, mas ele só é superado se todas as condições de estar na universidade são satisfeitas. Isso é uma luta e é uma questão de caso a caso. Também cabe ao professor, naquele momento, encontrar o justo meio, com muita sensibilidade, para não renunciar seus compromissos acadêmicos sérios, nem ser insensível.

A Ufba tem um dos mais baixos índices de evasão. Agora, nós temos, ao contrário, um nível elevado de retenção. A Ufba está numa zona extremamente confortável. Mas as pessoas estão permanecendo, demoram muito tempo, sem condições de terminar o curso num tempo mais razoável. Qual é o problema? Tira vagas, por exemplo, de quem poderia entrar. Precisamos avançar para o estudante terminar bem o seu curso num tempo menor. 

Se não houvesse tantos cortes e ataques, talvez as universidades pudessem contribuir ainda mais neste momento, como o senhor pontuou. Como viver sempre nessa berlinda orçamentária?
É uma luta difícil. Tem sacrificado muito nossa comunidade. Evidentemente temos enfrentado diminuição de contratos, como a dos vigilantes. Isso tem sido uma luta constante, não há um fluxo de financeiro, ou seja, de recursos para faturas como gostaríamos. Tudo isso faz com que a gestão exija responsabilidade, mas também diálogo político com a comunidade, que tem que entender esse momento.

Vigilantes chegaram a fazer manifestação e paralisar atividades (Foto: Arquivo CORREIO/Mauro Akin Nassor)

Veja, a universidade deve sempre defender suas atividades finalísticas – pesquisa, ensino e extensão. Ao colocarmos isso como prioridade, evidentemente temos que ver quais são as condições para termos um ensino, pesquisa e extensão de qualidade. Para fazermos isso, a assistência estudantil tem um papel fundamental. Qual é a prioridade? É manter o ensino.

Mas o que é isso na universidade? Procurar que os eventos sejam realizados, que o estudante tenha condições de estudar plenamente – como o auxílio de permanência. Nós temos feito reduções procurando sempre não prejudicar. A arte da gestão consiste nisso. 

E em relação a políticas de assistência aos estudantes?
Nós estamos muito preocupados porque o orçamento diminuiu. Na assistência, algo em torno de R$ 2 milhões, e isso traz impactos. O orçamento da assistência estudantil nos preocupa. A Ufba precisaria ampliar esses recursos para garantir melhor transporte, melhor auxílio moradia para os estudantes estarem bem na Ufba e garantirmos o exercício da boa representatividade. 

Alguns terceirizados, como seguranças, tiveram que ser demitidos nesse processo de equilibrismos. Como isso afeta a universidade?
A solidariedade não é um termo abstrato, mas um sentimento concreto. É muito doloroso, por exemplo, perceber que essa situação orçamentária afeta a vida de pessoas valiosas e dedicadas que amam a Ufba. Isso é uma dor pessoal, sim, mas é institucional também. A condição de reitor me torna responsável, se quiser até culpado, porque sempre se usa a culpa nesses casos. O gestor sempre é testado nos limites do que ele poderia fazer e, às vezes, é impossível deixar de causar certos danos. É um sofrimento permanente.

Na universidade, a gestão não se separa das atividades finalísticas. É algo que é feito em funções dos resultados acadêmicos, de solidariedade, de sociabilidade. O reitor não pode ser indiferente. Enquanto você, na comunidade, pode se solidarizar, neste ou aquele momento, o cargo [de reitor] obriga que você esteja mobilizado e responsável o tempo inteiro. Ser reitor não retira o envolvimento pessoal, mas aprofunda, se não seria um cargo vazio, um cargo de um gerente.

Cada reitor deixa sua marca, quais são as marcas que o senhor quer deixar?
Acho que, talvez, a nossa gestão venha a ser lembrada por algo que não esperava. Ou seja, talvez nossa gestão venha ser lembrada pelo fato de, tendo desenhado uma série de metas, nós enfrentamos uma mudança muito radical na vida pública do país. A nossa gestão, todas as gestões, têm problemas, mas nós tentamos tornar públicos nossos problemas e que cada categoria participasse.

A mobilização e o diálogo com os docentes, técnicos, alunos, e todas as categorias é fundamental. Espero que, além disso, nós consigamos, sim, concluir mais obras, mesmo com todas as dificuldades. Estamos tentando estabelecer um padrão de respeito e espero que nossa gestão seja lembrada como um marco no movimento de resistência.