O Caso do Homem Errado mostra a violência do racismo institucional

Numa pesquisa divulgada na  quinta (30) sobre os dez livros mais vendidos no Brasil durantes a quarentena, entre manuais de autoajuda e de finanças pessoais, chama atenção a inclusão do Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro, na décima posição. A presença deste livro didático em meio à best sellers que prometem felicidade e riqueza, só reforça o interesse sobre o debate racial que, felizmente, parece que vai sair dos ambientes de negritude.

Sim, porque não é por acaso, por exemplo,  que a editora Companhia das Letras anunciou a aquisição do catálogo das obras da escritora Carolina Maria de Jesus, e a disposição de tornar seu catálogo mais diverso. No mesmo caminho, as plataformas de streaming têm incluído no cardápio produções que ajudam a pensar o racismo estrutural que molda a cara e as relações do país.

Entre suas novidades de agosto, o GloboPlay anuncia a chegada dos documentários nacionais O Caso do Homem Errado, Dentro da Minha Pele e Menino 23, que discutem o racismo de diferentes abordagens e que foram lançados nos últimos dois anos. No caso do primeiro, a diretora Camila de Moraes, gaúcha que mora em Salvador, afirma que distribuir o filme de forma independente foi um imenso desafio, porém com uma trajetória gratificante.

“Estamos há dois anos nesse processo de distribuir o filme dentro do território nacional”, afirma Camila, que iniciou a tarefa com um corpo a corpo de lançamentos pelo país, e já consegiu incluir o filme em  streamings como o Google Play e iTunes, chegando a 18 países da América Latina.  “Estamos extremamente felizes com mais esse passo dado, pois sabemos que a proposta inicial do filme se mantém até os dias de hoje, que é o debate com diversos setores da sociedade sobre o racismo que ainda existe no mundo”.

O Caso do  Homem Errado conta a história do jovem operário negro Júlio César de Melo Pinto (tio de Camila), que foi executado pela Brigada Militar, nos anos 1980, em Porto Alegre. O crime ganhou notoriedade após a imprensa divulgar fotos de Júlio sendo colocado com vida na viatura e chegar, 37 minutos depois, morto a tiros no hospital. O filme traz o depoimento de Ronaldo Bernardi, o fotógrafo que fez as imagens que tornaram o caso conhecido, da viúva do operário, Juçara Pinto, e de nomes respeitados da luta pelos direitos humanos e do movimento negro no Brasil. Além do caso que dá título ao filme, a produção discute ainda as mortes de pessoas negras provocadas pela polícia. O filme  integrou a lista de pré-selecionados para representar o Brasil no Oscar.    

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Larrisa Luz participa do filme Dentro da Minha Pele, que traz depoimentos e performances de artistas negros (Foto: Divulgação)  

Exclusividade do Globoplay, Dentro da Minha Pele  acompanha as histórias de nove pessoas com diferentes tons de pele negra que apresentam seu cotidiano na cidade de São Paulo e compartilham situações de racismo, dos mais velados aos mais explícitos. Entre os personagens, estão um médico, uma modelo, dois estudantes universitários, uma doméstica e uma professora, entre outros.  Os depoimentos são alternado com performances de artistas negros da MPB, do hip hop e da poesia. 

Com direção de Toni Venturi e Val Gomes, Dentro da Minha Pele debate temas como “o olhar da branquitude intelectual” e se a pauta racial vai mesmo ocupar a  centralidade do debate no Brasil.  “O lugar da fala, do próprio diretor, branco e privilegiado, está devidamente inserido na ponderação do filme”, afirma o texto do material de divulgação. 

Já Menino 23 segue a investigação do historiador Sidney Aguilar sobre tijolos marcados com a suástica encontrados no interior de São Paulo. Durante os anos 30, nazistas brasileiros levaram cinquenta meninos negros de um orfanato no Rio de Janeiro para a fazenda onde os tijolos foram encontrados. Lá, eles foram escravizados pelos Rocha Miranda, família que fazia parte da elite brasileira, relacionada com empresários alemães e que não escondia sua paixão pelo nazismo. Com a queda de Hitler, a família abortou o projeto e expulsou os meninos da fazenda, deixando-os ao seu próprio destino. Sobreviventes compartilham pela primeira vez suas histórias.
 

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Menino 23 traz depoimentos de sobreviventes de fazenda que manteve crianças escravizadas nos anos 30  (Foto: Divulgação)

Esses títulos se somam a outros já disponíveis na plataforma sobre o mesmo assunto, como Eu Não Sou Seu Negro (Raoul Peck), baseado no livro inacabado de James Baldwin sobre o racismo nos EUA para examinar as questões raciais contemporâneas, com relatos sobre as vidas e assassinatos dos líderes ativistas Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Jr;  o indicado ao Oscar 2019  No Interior Do Alabama: A Vida Em Hale County (RaMell Ross) e Toni Morrison: Partes de Mim (Timothy Greenfield-Sanders), que narra a história da autora que dá título ao filme, a primeira negra americana a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura;  Ou ainda os filmes Movimento Negro dos EUA e a Não Violência e  Black Lives Matter – O Movimento Negro Hoje.