Cartaz do filme ‘Todas as melodias’, de Marco Abujamra
Dario Zalis
Resenha de documentário musical
Título: Todas as melodias
Direção e roteiro: Marco Abujamra
Produção e codireção: Mariana Marinho
Realização: Dona Rosa Filmes
Cotação: * * * *
♪ Filme exibido na 44ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
♪ “Eu continuo com ele e ele comigo. Sem obsessão. Mas é real. Uma parte dele se foi. Mas outra não vai nunca”, relativiza Jane Reis, viúva de Luiz Melodia, em fala alocada logo no início do roteiro de Todas as melodias, documentário do cineasta Marco Abujamra sobre o cantor, compositor e músico carioca que morreu há três anos.
A fala de Jane indica o caminho seguido pelo diretor no filme exibido pela primeira vez na noite de quinta-feira, 22 de outubro de 2020, em sessão online da 44ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Sim, Luiz Carlos dos Santos (7 de janeiro de 1951 – 4 de agosto de 2017) parece ter ido por aí, como cantava no samba de Zé Kétti (1921 – 1999) que gravou em 1999 em fase de vigor renovado na carreira impulsionada em 1971 quando Gal Costa apresentou a canção Pérola negra (Luiz Melodia, 1971) no roteiro do show Fa-Tal – Gal a todo vapor (1971 / 1972).
E Melodia parece continuar por aí, em qualquer esquina, em qualquer botequim, com o violão debaixo do braço, pronto para fazer uma música cheia de “saídas inesperadas” como as do Morro de São Carlos, onde o poeta se criou na vida e na música.
A analogia é usada pelo poeta e compositor Waly Salomão (1943 – 2003) – em imagem de arquivo incluída no filme – para caracterizar a sintaxe singular das letras de Melodia e os enviesados fluxos melódicos do compositor de Ébano (1975), música ouvida na apresentação do cantor no festival Abertura (TV Globo, 1975).
Levado ao Morro do São Carlos pelo pintor Hélio Oiticica (1937 – 1980), Waly conta – em outro momento da conversa da mesa redonda rebobinada no documentário – o caminho que levou à canção bluesy Pérola negra até a voz de Gal Costa, vista no filme cantando a música no show Estratosférica (2015).
Contudo, o roteiro do diretor Marco Abujamra foge do didatismo formal ao enfocar Luiz. Todas as melodias é documentário indicado para quem já tem alguma informação prévia sobre o artista.
Quase sensorial, o roteiro de Abujamra capta Melodia pelas frestas, pelos depoimentos nada óbvios – todas as falas de Jane Reis são especialmente elucidativas, mas nenhuma diz mais do que o take silencioso que, já no fim do filme, foca o olhar parado e triste de Jane na casa onde viveu com Melodia – e pelas imagens em super8 do cantor nos becos e ruelas do Morro de São Carlos. Se é para matar o espectador de saudade, que seja no Estácio, berço de artista negro que sofreu o racismo na pele, como o filme também mostra, sem fugir à luta.
“Melodia é uma metáfora”, filosofa Jards Macalé, amigo e cúmplice geracional de ousadias estilísticas percebidas maldosamente como “maldições” pela indústria da música. Macalé é visto no filme ao lado da atriz e cantora Zezé Motta, intérprete cultuada por entender a obra do compositor.
“Olha, às vezes eu não entendo, não, mas eu gosto”, rebate Zezé. Quando o filme rebobina take de show com trecho de dueto transgressor entre Melodia e Zezé na interpretação de Negro gato (1965) – música de Getúlio Córtes que Melodia tomou para si a partir de gravação lançada em 1980 – fica evidente que, sim, Zezé entendia Melodia.
Também fica claro ao longo do filme que, do jeito arredio e desconfiado (traço acentuado no depoimento da cantora Céu), Luiz Melodia foi um tradutor da alma do Brasil. Céu canta Vira lata – música de lavra própria que gravou com Melodia no álbum Vagarosa (2009) – a capella em número feito para o filme. Liniker impressiona ao dar voz a Fadas (Luiz Melodia, 1978), também sem acompanhamento instrumental.
Já Arnaldo Antunes, poeta da canção, eleva o poeta antecessor (“O Brasil ainda tem que alcançar a grandeza de Melodia”) e (se) emociona ao recitar os versos da letra de Magrelinha (Luiz Melodia, 1973), uma das maravilhas contemporâneas do primeiro álbum de Melodia, Pérola negra (1973).
Consultora e condutora do filme, Jane Reis desmente a fama de boêmio do trabalhador pai de Luiz, Oswaldo Melodia (“A farmácia do São Carlos era ele”, lembra, em alusão ao fato de o ofício de Oswaldo ter lhe permitido trazer medicamentos para a população do morro), e exalta a mãe do artista, Eurídice (“Era uma rainha. Nunca a vi falar alto”), lembrando, com emoção contida, da vez em que, em momento de grande dificuldade financeira, Eurídice dividiu com Jane as compras do mercado.
Embora jamais perca o ritmo, o filme Todas as melodias por vezes peca ao não contextualizar entrevistados que vivem longe dos holofotes. Muito espectador ficará sem saber, por exemplo, que Raquel e Vânia Fernandes, tão presentes no roteiro, são irmãs de Melodia.
O fugaz caso de amor de Melodia com a dançarina capixaba Beatriz Saldanha – em união que gerou o primeiro filho do cantor, Hiran, cujo depoimento resulta inexpressivo no filme – também resulta mal explicado na tela.
Quando a música fala por si só, como no take de show em que Melodia e o guitarrista Renato Piau reviram a nordestina Mulher rendeira (1922) com suingue arretado, Todas as melodias se justifica como filme pleno da luz de Luiz, da parte que nunca vai embora de que fala Jane Reis no início.
São a arte e a alma imortal de Luiz Carlos do Santos – que vão continuar por aí – os motores que alavancam Todas as melodias, documentário que retrata o Negro Gato com a cor do Brasil entre “saídas inesperadas”.