Álbum ‘HV sessions’ evidencia a habilidade do guitarrista em dez registros de músicas em inglês. Capa do álbum ‘HV sessions – Vol. I’, de Herbert Vianna
Arte de Barrão
Resenha de álbum
Título: HV sessions – Vol. I
Artista: Herbert Vianna
Edição: Selo 304 / Altafonte
Cotação: * * *
♪ É até difícil identificar o timbre da voz de Herbert Vianna no canto de And I love her (John Lennon e Paul McCartney, 1964), balada pop romântica do repertório dos Beatles.
O timbre aveludado do canto do intérprete na quinta das 10 faixas do quinto álbum solo do artista, HV sessions – Vol. I , sugere que a voz do vocalista do grupo Paralamas do Sucesso soa “geneticamente modificada” neste disco produzido por Chico Neves e lançado na sexta-feira, 23 de outubro, pelo selo fonográfico do produtor, 304, com distribuição digital feita via Altafonte e com capa assinada pelo artista plástico Barrão.
Guiado pelo produtor musical, Herbert Vianna serenizou o canto nesses registros afetivos feitos entre 2010 e 2011, em sessões que também deram origem ao anterior álbum solo do artista, Victoria, lançado em 2012 e também produzido por Chico Neves.
Single que precedeu o álbum, Pinball wizard (Pete Townshend, 1969) já dera em 9 de outubro a pista e o tom de HV sessions – Vol. I ao concentrar a pegada do tema do grupo inglês The Who – composta para o álbum com o repertório da ópera-rock Tommy (1969) – no toque do violão de Herbert e no minimoog e harmonium pilotados pelo produtor Chico Neves. Somados à guitarra de Herbert Vianna, esses instrumentos são recorrentes no disco.
O álbum HV sessions deve ser entendido, ouvido e avaliado como disco-relicário construído pelo afeto que norteou Herbert Vianna ao selecionar 10 canções em inglês (grande parte oriunda de grupos e/ou músicos britânicos) que ajudaram a moldar a personalidade musical do artista.
O produtor musical Chico Neves e Herbert Vianna no estúdio 304, onde o álbum ‘HV sessions’ foi gravado
Gustavo Stephan / Divulgação
São registros opacos, caseiros, que dificilmente vão atrair ouvintes sem qualquer ligação anterior com a trajetória do vocalista, guitarrista e principal compositor da banda Paralamas do Sucesso, uma das mais longevas da história do pop rock brasileiro.
A suavidade da abordagem de When my guitar gently weeps (George Harrison, 1968) – outro tema dos Beatles, este gravado por Herbert com a guitarra no mesmo tom sereno da voz – indica que as sessões resultantes do disco são frutos do prazer íntimo e pessoal do músico no contato com essas canções.
Dentro dessa atmosfera afetiva, há abordagens que soam mais fluentes no conjunto do disco – como, por exemplo, a de Opportunity (1980), música do repertório do cantor e compositor inglês Elvis Costello que Herbert canta somente na companhia dos próprios violão e guitarra.
Em contrapartida, o solista dilui toda a aliciante leveza pop de There’s a kind of hush (Geoff Stephens e Les Reed, 1967), composição apresentada pela bandas inglesas The New Vaudeville Band e Herman’s Hermit nove anos antes de ser reciclada em 1976 pelo duo norte-americano The Carpenters.
Herbert Vianna lança álbum gravado entre 2010 e 2011 com produção musical de Chico Neves
Maurício Valladares / Divulgação
A crueza de registros como o de Tempted (Glenn Tilbrook e Chris Difford, 1981), composição da banda inglesa de pós-punk Squeeze, reforça a natureza artesanal das HV sessions. Já a delicadeza do canto do intérprete em Purple haze (Jimi Hendrix, 1967), faixa em que sobressai a timbragem da guitarra de Herbert, soa mais providencial do que opcional, até pela dificuldade de encarar qualquer cruel comparação com a gravação original do grupo The Jimi Hendrix Experience.
Espécie de country existencial na versão original do cantor Glen Campbell (1936 –2017), Wichita lineman (Jimmy Webb, 1968) corrobora – ao lado de Sunshine of your love (Eric Clapton, Jack Bruce e Pete Brown, 1967), standard do trio inglês Cream – a sensação de que o guitarrista brilha mais do que o cantor no exercício das HV sessions.
Sintomaticamente, o álbum encerra com melódico registro instrumental de Europa (Earth’s cry heaven’s smile) (Carlos Santana e Tom Coster, 1976), canção espiritual já criada originalmente sem letra pelo guitarrista Carlos Santana.
Pelo resultado das dez faixas, o álbum HV sessions – Vol. I oferece munição certeira tanto para haters como para eventuais ouvintes que o louvarão por devoção cega a Herbert Vianna. O mais sensato é fugir de extremismos e perceber o disco como o tributo honesto e possível de um músico à própria memória afetiva.