Acusado de possuir ligações controversas com lideranças religiosas islâmicas, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, tem visto com maus olhos as medidas que estão sendo implementadas na França para combater o terrorismo. Só nesse mês, o país vivenciou a ameça de uma mulher-bomba explodir uma estação de trem e assistiu a execução de um professor, que mostrou charges do profeta Maomé em sala de aula. Em resposta a esses ataques, o governo francês, sob liderança do presidente Emmanuel Macron, expulsou estrangeiros que estavam sendo monitorados por sua radicalização islâmica, dissolveu grupos fundamentalistas e fechou uma mesquita.

Erdogan se pronunciou sobre essas ações pela primeira vez no sábado (24), quando afirmou em um discurso televisionado: “O que se pode dizer de um chefe de Estado que trata desta maneira milhões de membros de diferentes grupos religiosos: antes de mais nada, faça um exame de saúde mental”.  Após essa declaração, o embaixador francês na Turquia deixou o país. “Os comentários do presidente Erdogan são inaceitáveis. O ultraje e o insulto não são método”, disse o gabinete de Macron em comunicado. Outras nações europeias também criticaram o discurso. A chanceler alemã, Angela Merkel, chegou a dizer que os comentários do presidente turco eram “difamatórios” e “completamente inaceitáveis”. O chefe da diplomacia europeia, Josep Borell, ainda pediu através do seu perfil no Twitter para a Turquia “encerrar essa espiral perigosa de confrontos”.

Nesta segunda-feira (26), em um outro discurso televisionado, Erdogan solicitou um boicote aos produtos de origem francesa, alegando que a política de Macron é anti-islâmica. O governante turco pediu ainda que a União Europeia intervenha para proteger os muçulmanos de possíveis opressões na França. Segundo a emissora britânica BBC, Erdogan disse que os muçulmanos estão “sujeitos a uma campanha de linchamento semelhante àquela contra os judeus na Europa antes da Segunda Guerra Mundial” e acrescentou que “os líderes europeus deveriam dizer ao presidente francês para parar com sua campanha de ódio”. Por fim, ele disse: “Nunca dê crédito a produtos com marca francesa, não os compre”.

Erdogan não é o único governante a criticar Macron. Produtos franceses foram removidos de lojas na Líbia, na Síria e na Faixa de Gaza e o primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, publicou em seu Twitter um longo texto sobre o assunto. “Esse é um momento que o presidente Macron poderia ter dado um toque de cura e negado espaço a extremistas ao invés de criar mais polarização e marginalização que inevitavelmente levam à radicalização. É lamentável que ele tenha escolhido encorajar a islamofobia atacando o Islã ao invés vez dos terroristas que praticam a violência, sejam eles muçulmanos, supremacistas brancos ou ideólogos nazistas”, escreveu.

O líder paquistanês também criticou o fato do presidente da França ter incentivado a continuidade da produção de charges que retratam Maomé: “claramente sem ter nenhum entendimento (do Islã), o presidente Macron atacou e feriu os sentimentos de milhões de muçulmanos na Europa e ao redor do mundo”. Para os seguidores do Alcorão, a retratação de qualquer profeta do Islã é proibida – tanto que as formas predominantes na arte islâmica são geométricas ou caligráficas, ao invés de figurativas. Esse tema já causou polêmica em 2015, quando o jornal satírico francês Charlie Hebdo foi alvo de um atentado terrorista que deixou doze pessoas mortes e cinco feridas. A publicação é conhecida por ser fortemente antirreligiosa e ter publicado uma série de caricaturas de Maomé, incluindo algumas em que o profeta aparecia nu.