Rapper enfatiza a matriz do hip hop na sequência do disco de 2019 ao mesmo tempo em que renova o som ao se conectar com gerações mais jovens. Capa do álbum ‘Origens parte 2 – Ontem, hoje e amanhã’
Divulgação / Som Livre
Resenha de álbum
Título: Origens parte 2 – Ontem, hoje e amanhã
Artista: Edi Rock
Edição: Som Livre
Cotação: * * * *
♪ Edi Rock arrisca definições de liberdade nos versos de Origens parte 2, rap produzido por Anderson Franja que abre e batiza o terceiro álbum solo desse artista paulistano revelado e projetado no grupo Racionais MC’s. O tema de abertura dá o tom reflexivo do discurso do disco.
Sequência de Origens (2019), álbum pautado por misturas rítmicas, Origens parte 2 – Ontem, hoje e amanhã se fundamenta mais no rap – como sinalizaram os singles Vidas negras e Só Deus (com refrão evocativo da atmosfera do gospel na voz de Daniel Querino – e menos nas fusões do rap com outros gêneros musicais, para enfatizar a mensagem.
O discurso de Edi Rock geralmente passa longe da originalidade, mas soa necessário e reforça recado que ainda precisa ser escutado pela sociedade brasileira, apodrecida por séculos de racismo e injustiça social.
Mesmo em faixa iluminada pelo sol da positividade e produzida pelo trio Dogz, como Um novo amanhã (com Thiaguinho brilhando no canto de alma soul), há o peso do hip hop.
Rap formatado por Anderson Franja, produtor de oito das 12 faixas do álbum, Dá um grito traz Big da Godoi no refrão e um beat sombrio que se afina com o cotidiano cinzento da cidade de São Paulo (SP), também assunto de Paranoia – faixa pesada que junta Edi Rock com MC Sombra – e da história narrada na funkeada Tá tendo, faixa produzida por Paulo Ninja.
Já Grão de areia bebe da fonte do rap norte-americano e do funk do baixista Bootsy Collins para ressaltar que cada mano é mais um na multidão e na correria da luta cotidiana.
De Angola, faixa produzida por CHF que une Edi Rock ao trapper carioca Flacko, acelera mais o ritmo com toque de modernidade, mostrando que o rapper dos Racionais MC’s continua em movimento, atento aos sinais do hip hop.
A conexão com Guto GT – filho de KL Jay, DJ do Racionais MC’s – no R&B romântico Vai chover reafirma a disposição de Edi Rock para se irmanar com gerações mais jovens. DJ Will assina a produção da faixa.
Além de modernizar o som de Edi Rock sem afastá-lo da matriz do rap, a ligação com jovens manos impede que o artista soe como clone de si mesmo. Faixas como Som de Iemanjá renovam o som do artista, apontando futuro para Edi Rock.
Contudo, o álbum Origens parte 2 também valoriza tradições do “velho rap”, assim mencionado nas rimas de Liberdade, faixa produzida por DJ Cia e gravada por Edi com o canto enérgico da rapper Lourena e com o discurso do rapper Morcego. Na faixa, Edi Rock volta a refletir sobre o conceito de liberdade. “Somos um time. Somos um filme. Esse roteiro é nosso”, conclui o rapper no fim do discurso.
Vai se diferencia nesse roteiro pela pressão do baticum da faixa produzida por Pedro Penna, autor do rap também assinado por Edi Rock e pelo convidado Jorge Du Peixe. A força dos atabaques potencializa o discurso que capta o momento apocalíptico do mundo.
Com produção de Anderson Franja e Sergio Santos, Dinheiro tem pegada aliciante, potencializada pela união de Edi Rock com o rapper carioca MV Bill nesta faixa de batida vintage que nem o discurso – construído com definições-clichês sobre o vil metal – consegue enfraquecer.
No arremate do álbum Origens 2, Edi Rock bebe da fonte matricial da África em Heads up com o afrobeat de Meaku, nigeriano residente em Los Angeles (EUA), assim como produtor dessa bilíngue faixa final do álbum, DJ Fredy Muks.
Sem esquecer os beats de ontem, Edi Rock também sintoniza os sons de hoje, de olho no amanhã, justificando o subtítulo da alentada sequência do álbum Origens.