Primeiro grande lançamento após reabertura de alguns cinemas no Brasil, novo filme do cineasta se perde ao explorar de forma sisuda absurdos de idas e vindas no tempo. “Tenet”, 11º filme de Christopher Nolan (“Dunkirk”) que estreia nesta quinta-feira (29), é a obra mais marcada pelos grandes símbolos da carreira do cineasta – um grande espetáculo visual em um gênero conhecido, com toques de ficção científica, que embala discussões e temas mais profundos.
Infelizmente, o primeiro grande lançamento dos cinemas após a reabertura de algumas salas no Brasil é um dos piores roteiros já escritos pelo britânico, com diálogos pobres e perdido em sua própria complexidade.
Apesar do belíssimo elenco, encabeçado por John David Washington (“Infiltrado na Klan”) e de Robert Pattinson (“O farol”), e das criativas cenas de ação, “Tenet” consegue a proeza de confundir o público ao mesmo tempo em que é de certa forma previsível.
Assista ao trailer de ‘Tenet’
Sem tempo, irmão
Nolan coloca no centro da narrativa um tema comum a grande parte de seu trabalho, o tempo.
Washington – filho mais novo de Denzel e com o carisma do pai – interpreta um espião que aceita a missão de impedir uma possível guerra mundial.
Através do traficante de armas milionário interpretado por Kenneth Branagh, uma entidade misteriosa ameaça a realidade com o poder de inverter a entropia de objetos ou até de pessoas – o que significa, na narrativa, que eles passam a existir de trás para a frente, do futuro para o passado.
Jack Cutmore-Scott, John David Washington e Robert Pattinson em cena de ‘Tenet’
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O cineasta, que não é bobo, tira proveito da premissa, com lutas e perseguições grandiosas e emocionantes que acontecem para os dois lados da linha temporal de forma simultânea.
Nolan se aproveita da confusão mental provocada pelo efeito com a maestria esperada do criador de “A origem” (2010) e “Interestelar” (2014), enquanto dá um certo alento ao espectador mais perdido, que tem a companhia do protagonista sem nome, outro novato nesse universo de regras incertas.
Elizabeth Debicki e Kenneth Branagh em cena de ‘Tenet’
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Alguém nos ajude, Nolan, a entender
A famosa inventividade narrativa do britânico fica concentrada mais no tema. Ironicamente, considerando o conceito de vai e vem temporal, a trama de “Tenet” é uma das mais lineares de sua carreira.
Talvez por causa dessa complexidade, ele não abusa de pulos e efeitos que desorientam o público como os de “Amnésia” (2000) e até do mais recente “Dunkirk” (2017).
A opção ajuda, mas ainda não é suficiente para impedir que o espectador corra o tempo inteiro para acompanhar todas as ideias da história.
Cena de ‘Tenet’
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Nem mesmo as longas sequências em que um personagem especialista explica tudo o que está acontecendo, e que já são outra marca (não tão bem-vista) do cineasta, funcionam muito bem.
Na maior parte do tempo, elas são tão repletas de termos técnicos que soam mais como aulas de física – para piorar, são enfraquecidas por falas que parecem tiradas de um roteiro de curso de cinema.
Quando uma das líderes, que parece entender muito bem a ameaça mas que insiste em falar de forma críptica, desiste e grita para o protagonista “estamos sendo atacados pelo futuro!”, o filme já perdeu tempo demais em sua própria sisudez para impedir uma virada de olho na plateia.
Com um conceito tão absurdo, “Tenet” teria muito a ganhar ao não se levar tão a sério.
John David Washington e Elizabeth Debicki em cena de ‘Tenet’
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Fé tem limites
O título pode ser traduzido como “princípio religioso”, ou até mesmo “dogma”.
Além de servir como um palíndromo, uma daquelas palavras que podem ser lidas da mesma forma de trás para frente, ela também é uma metáfora para as motivações do protagonista.
Nolan a escolheu de forma consciente, mas esquece que isso enfraquece o personagem. Sem entender exatamente por que ele aceita uma missão que o próprio não compreende, o público tem dificuldades para criar uma conexão – o carisma da família Washington tem seus limites.
Até a opção de omitir seu nome, com certeza algo que pareceu muito sagaz na cabeça do cineasta, tira um pouco da surpresa de uma das grandes revelações finais.
O britânico ainda deixa outros pontos vitais para que o público chegue às próprias conclusões, mas faltam a eles a aura de mistério do peão rodando na última cena de “A origem”.
Kenneth Branagh em cena de ‘Tenet’
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Ótimo filme ruim
“Tenet” é uma produção ambiciosa que realmente merecia ser vista na maior tela possível, prejudicada pela triste realidade da pandemia.
Infelizmente, até por estar há tanto tempo longe dos cinemas, o público merecia um pouco mais do que a tentativa de alcançar a mente de Nolan por duas horas e meia.
Com suas explicações complicadas, um senso de urgência com final previsível e ação impecável, é uma obra tecnicamente perfeita, mas que não atinge os altos objetivos que ela mesma estabelece.
Na superfície parece excelente, mas não resiste a uma observação mais aprofundada (quem conseguir encontrar lógica para as máscaras de oxigênio, por exemplo, merece um prêmio). “Tenet” é, talvez, um ótimo filme ruim.
John David Washington e Robert Pattinson em cena de ‘Tenet’
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