Pianista e compositor pernambucano alia o ativismo do discurso à beleza de música requintada em disco autoral de canções inéditas. Capa do álbum ‘Do meu coração nu’, de Zé Manoel
Kelvin Andrade / Máquina 3
Resenha de álbum
Título: Do meu coração nu
Artista: Zé Manoel
Edição: Joia Moderna / ONErpm (distribuição digital) / Passa Disco (parceria na edição em CD)
Cotação: * * * * *
♪ Em junho deste ano de 2020, Zé Manoel apresentou História antiga, primeiro single de álbum então intitulado Meu coração escuta e dita em silêncio. Nessa grandiosa composição da refinada lavra do artista, o cantor, compositor e pianista pernambucano – nascido em 1980 em Petrolina (PE) – recontou, com dor no peito, narrativa ancestral, genocida, que vem ceifando vidas negras ao longo de séculos de escravidão e injustiça social.
No álbum lançado na segunda-feira, 26 de outubro, com o título já trocado para Do meu coração nu, Zé Manoel desenterra tesouros ancestrais, se despe dos pré-conceitos brancos e reconstrói essa narrativa social, oferecendo o posto de vista negro da história.
O álbum Do meu coração nu bate no pulso da ancestralidade africana, mas no compasso próprio deste artista que transita pelo universo musical erudito com a mesma naturalidade com que finca notas no fértil solo afro-brasileiro.
Pianista de mão cheia, de toque tão sucinto quanto preciso, já comumente arregimentado para discos de exigentes cantoras como Adriana Calcanhotto e Maria Bethânia (que o chamou para o álbum que apronta desde setembro com os toques de músicos como o também gigante violonista João Camarero), Zé Manoel se eleva – inclusive – como compositor em Do meu coração nu.
História antiga, que já se insinuou grande em junho, fica ainda maior no contexto social e musical do álbum produzido pelo baixista baiano Luisão Pereira e lançado pela gravadora Joia Moderna em edição digital (distribuída via ONErpm) e edição em CD (fabricada em parceria com o selo Passa Disco, da homônima loja de discos do Recife).
Não fosse a (boa) música, o disco já estaria legitimado somente pela reconstrução – em 11 faixas que encadeiam músicas e falas – do enredo da história do povo negro, evocativa da ancestralidade africana, como reforçam os versos em francês de Notre histoire, parceria de Zé Manoel com o compositor e baterista Stephane San Juan bafejada pelos sopros arranjados por Alberto Continentino.
Zé Manoel lança o terceiro álbum de estúdio, ‘Do meu coração nu’, produzido por Luisão Pereira
Kelvin Andrade / Máquina 3 / Divulgação
Na exposição do disco Do meu coração nu, a canção Notre histoire sublinha a fala da historiadora sergipana Beatriz Nascimento sobre a invisibilidade dos povos negros e indígena no roteiro escrito por mãos brancas. Retirada do documentário O negro – Da senzala ao soul (1977), a fala da historiadora está alocada na faixa anterior intitulada Escuta Beatriz Nascimento e é ouvida sobre a música que brota do toque do piano de Zé Manoel.
Em outra fala musicada, Escuta Letieres Leite, o maestro baiano – um dos arranjadores do álbum Do meu coração nu – defende a matriz afro-brasileira latente tanto no baião de Luiz Gonzaga (1912 – 1989) quanto no toque do piano de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994).
Contudo, além do discurso tão legítimo quanto necessário, a música jamais fica em segundo plano no disco. Grande música, aliás. Nesse terceiro álbum de estúdio, o primeiro desde Canção e silêncio (2015), Zé Manoel atinge sublimes regiões emocionais com composições como Canto pra subir (Zé Manoel), inebriante canção de adeus composta pelo artista com inspiração nos versos “Você tem que aprender a sair da mesa quando o amor não está mais sendo servido”, eternizados pela cantora norte-americana Nina Simone (1933 – 2003) na gravação de 1965 da música You’ve got to learn (Il faut savoir, Charles Aznavour, 1961).
No mesmo alto nível melódico e harmônico de Canto pra subir, a música No rio das lembranças propõe imersão nas águas doces de Oxum em que Zé Manoel revolve memórias ancestrais e embute canto de candomblé colhido no terreiro Xambá, de Olinda (PE). Guitinho da Xambá é parceiro (na letra) e convidado de Zé Manoel na faixa encorpada com o baticum e as vozes do Grupo Bongar, oriundo do mesmo terreiro.
Guardião de falas e sensações imemoriais, o corpo é o templo que abriga a sensualidade romântica de Não negue ternura. Cantora e compositora baiana que também vendo apresentando outras visões da história negra, Luedji Luna é parceira e convidada de Zé Manoel nessa canção sobre amor preto e sobre aceitação.
No discurso do álbum Do meu coração nu, as personagens negras se elevam ao alto e rogam proteções para sobreviver na selva das cidades violentas que exterminam o povo preto com balas perdidas que encontram sempre o mesmo alvo.
Rogar às deusas é o que faz a poeta pernambucana Bell Puã nos versos ouvidos no prelúdio que antecede Pra iluminar o rolê (Zé Manoel), outra maravilha contemporânea do repertório inédito e autoral do álbum Do meu coração nu.
Pra iluminar o rolê é canção embebida em latinidade (com ecos dos boleros caribenhos de João Donato) e leveza construída pelo arranjo que harmoniza o piano de Zé Manoel com a guitarra de Kassin, a bateria de Stephane San Juan e o baixo, órgão e synth pilotados pelo produtor musical Luisão Pereira. A atmosfera leve dilui a angústia do eu-lírico da canção por ignorar o paradeiro do ser amado.
Já Wake my divine é flerte com a canção norte-americana. A música é de Zé Manoel. Escrita em inglês, a letra é de autoria da cantora norte-americana Gabriela Riley, convidada da faixa.
No arremate do disco, Zé Manoel pede cura e externa gratidão ao orixá das doenças, Obaluaê. Com sopros orquestrados divinamente pelo maestro e arranjador Letieres Leite, Adubé Obaluaê – faixa previamente lançada em 19 de outubro como segundo single do álbum – reverbera Tincoãs no solo afro-brasileiro em que Zé Manoel assenta o álbum Do meu coração nu.
Desse solo, Zé Manoel tem o mundo como horizonte infinito, vislumbrado pelo som sofisticado desse artista que ainda precisa ser (re)conhecido como um gigante do universo musical do Brasil para que ele não veja o aeroporto como a única saída viável para o crescimento de carreira que já soma mais dez anos de canções e silêncios.