Saxofonista e flautista aborda, com técnica e emoção depuradas, o cancioneiro moderno do compositor que abriu caminhos para a bossa nova. Capa do álbum ‘Ilusão à toa – Mauro Senise toca Johnny Alf’
Aquarela de Ana Luisa Marinho
Resenha de álbum
Título: Ilusão à toa – Mauro Senise toca Johnny Alf
Artista: Mauro Senise
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * *
♪ Quando Mauro Senise leva literalmente na flauta o choro Seu Chopin, desculpe (Johnny Alf, 1964), em arranjo jazzístico criado pelo pianista Adriano Souza, é como se o saxofonista e flautista carioca estivesse adentrando novamente a porta da boate Le Bateau.
Foi nesse reduto do samba-jazz no bairro carioca de Copacabana que, em 1973, o então jovem iniciante Senise se deparou ao vivo com a modernidade perene da obra e do piano do compositor e músico conterrâneo Alfredo José da Silva (19 de maio de 1929 – 4 de março de 2010), sendo tocado pela música do gênio artisticamente conhecido como Johnny Alf.
A diferença é que, em março de 2019, quando gravou o álbum Ilusão à toa – Mauro Senise toca Johnny Alf, Senise já era músico tarimbado e conceituado na cena instrumental carioca.
Lançado pela gravadora Biscoito Fino neste mês de outubro de 2020, em CD e em edição digital, o disco flagra Senise com maturidade para percorrer – e reinventar, com a liberdade dada aos músicos que falam a língua universal do jazz – os caminhos harmônicos desbravados nos anos 1950 por Alf, reconhecidamente um dos arquitetos da modernista construção da bossa nova.
Com capa que expõe aquarela de Ana Luisa Marinho e com texto (na edição em CD) em que Senise recorda o sopro de juventude ao ver e ouvir Alf no escurinho da boate Le Bateau, o álbum Ilusão à toa jamais tem nota jogada fora ao longo das 13 faixas.
O que é amar (1953), por exemplo, ultrapassa os nove minutos e justifica a duração na gravação arranjada pelo pianista Cristovão Bastos para o sopro do sax alto de Senise porque, além da técnica, existe na faixa – assim como na abordagem de Disa (Johnny Alf e Maurício Einhorn, 1964) – o que pode ser caracterizado como “alma” ou “sentimento”.
É dessa conexão entre técnica e emoção (depurada, pois o cancioneiro de Alf sempre podou excessos pela própria natureza cool) que se alimenta Senise quando sopra o sax alto, instrumento usado para evidenciar a leveza de Rapaz de bem (1955). E quando se utiliza do sax soprano para realçar a atmosfera da balada Olhos negros (1991) – primeira e única parceria de Alf com o letrista poeta Ronaldo Bastos – e para interpretar Sonhos e fantasias (1991).
Com arranjo e piano de Gilson Peranzzetta, também ouvido com a habitual precisão em Plenilúnio (1968), a balada Nós (1974) – evocativa de canções anteriores da faceta mais romântica da obra de Alf – tem a melodia iluminada pela flauta em sol de Senise, com espaço para recriações.
Mauro Senise tem encontro virtual com Johnny Alf na última faixa do disco, também lançado no formato de CD
Ana Luisa Marinho / Divulgação
Mauro Senise jamais faz cover no álbum Ilusão à toa. O cancioneiro de Alf é filtrado pela estética de Senise, com reverência, mas sem devoção cega, ao compositor celebrado. O que justifica a ênfase na percussão tocada por Fábio Luna na gravação da música-título Ilusão à toa (1961), opção estilística que transpõe a balada para a atmosfera do samba-canção, sem sair do ambiente esfumaçado de uma boate.
O aconchego das boates sempre acomodou bem o cancioneiro de Johnny Alf, porque a obra do compositor pede sobretudo intimismo, mesmo quando cai no sambaião (como em Céu e mar, composição lançada em 1958 que exemplifica a moderna complexidade harmônica e melódica da obra de Alf) como no samba-choro, como na gravação de Podem falar (1953), faixa pontuada pelo vibrafone do arranjador Jota Moraes.
A emoção é depurada, como entendeu João Senise, solista convidado a dar voz a Eu e a brisa (1967), uma das canções mais sublimes e conhecidas de Alf.
No fim do disco, há a surpresa da aparição do próprio Johnny Alf, cuja voz é ouvida em registro de Melodia sentimental (Heitor Villa-Lobos, 1958) no qual Senise intervém virtualmente com o sopro da flauta do artista. O encontro virtual apresenta um Senise já maturado pela vida – de 70 anos completados em 18 de maio – ao desde sempre moderno Alf.
Contudo, é como se diante de tanta modernidade, reiterada no álbum Ilusão à toa, Mauro Senise conservasse aos 70 anos o mesmo encantamento juvenil do músico ainda inexperiente que foi tocado pela obra de Johnny Alf ao adentrar a boate carioca Le Bateau em 1973.