Capa do álbum ‘Sempre se pode sonhar’, de Paulinho da Viola
Elifas Andreato
Resenha de álbum
Título: Sempre se pode sonhar
Artista: Paulinho da Viola
Edição: Sony Music
Cotação: * * * *
♪ Pela dimensão atemporal já alcançada pela obra de Paulinho da Viola, pouco importa que o álbum lançado pelo artista nesta sexta-feira, 30 de outubro de 2020, apresente gravação ao vivo captada em temporada de shows feito pelo cantor de 13 de setembro a 8 de outubro de 2006 no então recém-aberto Teatro Fecap, na cidade de São Paulo (SP).
Tivesse sido gravado no ano passado, e não há 14 anos, o álbum Sempre se pode sonhar talvez apresentasse conteúdo similar porque o tempo de Paulinho da Viola guarda a eternidade, correndo fora da hora do relógio que move o universo pop.
Ao longo da interpretação de 24 músicas distribuídas em 22 números, o álbum Sempre se pode sonhar oferece belo recorte da obra do artista na imensidão desse tempo já eterno. E, por isso mesmo, também pouco importa que, no roteiro, haja somente uma única música inédita em disco, Ela sabe quem eu sou, samba sincopado que embute harmonias evocativas da modernidade da bossa nova ao mesmo tempo que remete ao balanço de bambas como Cyro Monteiro (1913 – 1973). O samba apareceu nos shows de Paulinho justamente em 2006.
O conceito de novidade é relativo na discografia de Paulinho da Viola. Para muitos ouvintes, o samba-canção Nova ilusão (Pedro Caetano e Claudionor Cruz, 1941) – gravado pelo artista no álbum Cantando (1976) – pode soar novo, inclusive pelo frescor com que Paulinho interpreta a composição neste primeiro registro ao vivo de Nova ilusão na obra fonográfica do artista.
Talismã, parceria com Arnaldo Antunes e Marisa Monte, era novidade no show de 2006 – a ponto de o título ser caracterizado como “provisório” pelo cantor ao apresentar o inspirado samba ao público – mas acabou sendo registrado por Paulinho na gravação ao vivo de julho de 2007 que gerou o CD e DVD editados pelo cantor, ainda naquele ano de 2007, na série Acústico MTV.
Paulinho da Viola no show ‘Na madrugada’, apresentado em 2018 no Rio de Janeiro
Mauro Ferreira / G1
Com o toque dos músicos Celsinho Silva (pandeiro e percussão), Cristovão Bastos (piano), Dininho Silva (baixo), Hércules Nunes (bateria), João Rabello (violão) e Mário Sève (sax e flauta), Paulinho da Viola irmana novos e velhos sambas, interiorizando as dissonâncias de Roendo as unhas (1973) e a resignação pelo fim do Carnaval amoroso poetizado em Nós, os foliões (1982), música do compositor Sidney Miller (1945 – 1980) apresentada na voz do sambista há 38 anos.
Sambista, diga-se, que chora lindamente quando os músicos Israel Bueno (violão) e Izaías Bueno (bandolim) entram em cena e se juntam ao grupo no registro de bloco instrumental de choros, aberto com luminosa interpretação de Vibrações (Jacob do Bandolim, 1967) – em que brilha o bandolim e Izaías Bueno – e encerrado com Cochichando (Pixinguinha, 1944).
Entre um choro e outro, o grupo toca Um choro pro Waldir (1996) – delicado tema composto pelo artista com o pianista Cristovão Bastos em tributo ao compositor Waldir Azevedo (1923 – 1980) – e o então recente choro Vou me embora pra roça (2004), parceria de Paulinho com o flautista Mario Sève.
Somente após o bloco chorão é que o roteiro abre espaço para os sambas mais conhecidos de Paulinho da Viola – o que impede o álbum Sempre se pode sonhar de soar como mera variação do Acústico MTV do cantor.
Ainda assim, há interseções nos repertórios dos dois discos ao vivo, como os sambas Coração leviano (1977), Onde a dor não tem razão (Paulinho da Viola e Elton Medeiros, 1981), Dança da solidão (1972), Timoneiro (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho, 1996) e Coisas do mundo, minha nega (Paulinho da Viola, 1967).
O roteiro do show de 2006 inclui dois medleys. Os sambas autorais Chuva (1975) e Cantando (1976) são agregados no roteiro, assim como Tudo se transformou (1970) reaparece amalgamado com Coração vulgar (1965), samba omitido na tracklist das plataformas de áudio e no texto enviado à imprensa com a assinatura de Charles Gavin.
Lançado somente em edição digital (fato lamentável, já que a discografia de Paulinho da Viola foi toda editada em mídias físicas), o álbum Sempre se pode sonhar existe porque o artista devia disco à Sony Music e precisava acertar a dívida com a gravadora.
Não fosse a questão empresarial, talvez a gravação ao vivo permanecesse no fundo do baú, como a viola. Resta torcer para que Paulinho da Viola acerte outra dívida – a que já tem com os fiéis seguidores que esperam há 24 anos por álbum de inéditas do artista – e volte aos estúdios para registrar os sambas e choros que já aprontou nos últimos anos.
Mesmo que esse repertório inédito não preencha um álbum, há a possibilidade infinita de releituras de músicas alheias. Quando regravou em 1973 o samba-canção Nervos de aço (Lupicínio Rodrigues, 1947), incluído neste disco ao vivo, Paulinho da Viola o fez com tanto personalidade e propriedade que o que era antigo soou novo de novo.
Coisas do mundo de quem já transcendeu a noção de tempo com obra que se alimenta do passado quando o criador vislumbra o futuro. Por isso, ainda há esperança de um disco de músicas inéditas (na voz) de Paulinho da Viola. Sempre se pode sonhar…