Edição de dez anos do primeiro disco do artista é exemplo do erro de mexer em obras-primas. ♪ ANÁLISE – Há tendência mundial no universo pop de reeditar álbuns antológicos com faixas adicionais. Nostálgicos da modernidade, muitos artistas remexem em obras-primas que deviam permanecer imaculadas. Às vezes, a iniciativa parte de diretores de marketing de gravadoras, hábeis na operação da indústria da saudade (no caso de artistas mortos).
O fato é que, sejam produzidas com aval do artista ou à revelia do criador do disco, essas reedições raramente acrescentam algo de relevante a um álbum cultuado pelo caráter clássico adquirido com o tempo. Marcelo Jeneci, por exemplo, erra ao mexer na obra-prima Feito pra acabar, relançando o disco com quatro faixas novas em edição comemorativa de 10 anos.
Apresentado em 30 de outubro de 2010, o primeiro álbum do artista paulistano completa uma década de vida com o status de obra-prima da música pop brasileira contemporânea. Por isso mesmo, qual o sentido de alterar o conteúdo musical – e inclusive visual, com a criação de outra capa dissociada da estética original – de disco já em si perfeito?
Se a indústria fonográfica ainda operasse primordialmente com mídias físicas, ainda haveria o argumento de produzir reedição com capa diferente e músicas adicionais para fisgar colecionadores de discos, sempre ávidos por produtos do gênero. Na era digital em que singles adquirem mais importância do que álbuns, fica ainda mais sem sentido recriar uma criação já perfeita.
Capa da edição de dez anos do álbum ‘Feito pra acabar’, de Marcelo Jeneci
Jorge Bispo
Álbum produzido por Alexandre Kassin, com arranjos do maestro Arthur Verocai, Feito pra acabar resultou estupendo pela inspirada coleção de canções autorais (compostas por Jeneci com parceiros como Arnaldo Antunes e Chico César) e pela conciliação de leveza pop com densidade emocional.
Das quatro faixas adicionadas à edição de 10 anos de Feito pra acabar, somente a versão em italiano de Felicidade (Marcelo Jeneci e Chico César, 2010) – escrita por Ricardo Fischmann, Tomaz Di Cunto e Massimiliano de Tomassi – se enquadra com naturalidade na moldura original porque as vozes de Jeneci e da cantora convidada Erica Mou foram postas sobre a orquestração criada por Arthur Verocai para a gravação original.
Canção pop romântica lançada por Laura Vieri no primeiro álbum da cantora, Desastre solar (2018), Me sinto bem – música de Jeneci com letra de Isabel Lenza – ressurge em registro pálido na voz do autor. Jeneci produziu o fonograma e tocou todos os instrumentos (violão, baixo synth, bateria, piano e maraca) da gravação mixada por Kassin. Contudo, o acabamento orquestral soa aquém da arquitetura do disco original.
Marcelo Jeneci inclui músicas como ‘Doce loucura’ e ‘Rara’ na edição de 10 anos do álbum ‘Feito pra acabar’
Jorge Bispo / Divulgação
Música que apareceu no roteiro de alguns shows da turnê do álbum Feito pra acabar, entre 2011 e 2012, Doce loucura é o bombom pop dentre o naipe de faixas inéditas de Feito pra acabar – 10 anos. Delicioso, o refrão da canção evoca a inocência romântica da Jovem Guarda, em sintonia com a letra pueril em que Carlos Rennó aponta o amor como “o coquetel dos coquetéis”, em recado para jovens às voltas com a sedução das drogas.
Feita com músicos como Curumin (bateria) e Régis Damasceno (violões e baixo), além dos vocais de Laura Lavieri, a faixa flui bem e tem produção musical creditada a Kassin e a Jeneci. Ainda assim, teria sido mais lúcido lançar Doce loucura como single avulso do que como material associado ao álbum de 2010.
Já Rara, outra parceria de Jeneci com Carlos Rennó, soa como sobra. Há esboço de densidade emocional na gravação de clima meio tribal produzida por Jeneci, mas sem jamais atingir o nível musical das faixas do álbum original.
Não bastasse essa edição de 10 anos, Jeneci ainda programa para este mês de novembro uma edição ao vivo do álbum Feito pra acabar, cujo repertório foi integralmente revisitado pelo artista em registros feitos com Laura Lavieri, Curumin e Régis Damasceno. São produtos resultantes do isolamento social. Mas doce loucura seria deixar Feito pra acabar intacto, sem acrescentar material perecível ao arrebatador disco de 2010.