Cantora carioca apresenta primorosa gravação de ‘Saveiros’ em disco com 13 músicas do compositor. Capa do álbum ‘Dentro d’água’, de Maria Marcella
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Resenha de álbum
Título: Dentro d’água
Artista: Maria Marcella
Edição: Kuarup
Cotação: * * * 1/2
♪ Na letra de Água do mar, composição apresentada por Dori Caymmi no álbum Voz de mágoa (2017), o compositor Paulo César Pinheiro narra poeticamente o curso da água, a que corre no chão e a que escorre dos olhos.
Água do mar abre o segundo álbum da cantora carioca Maria Marcella, Dentro d’água, em bela gravação feita com a adesão vocal do próprio Dori, autor da melodia.
No mesmo ano em que Dori apresentou a canção Água do mar, Marcia Marcella lançou o primeiro álbum, Maresia (2017), emergindo como cantora enquadrada no molde mais tradicional da música brasileira.
Lançado em outubro de 2020 pela gravadora Kuarup, inclusive no formato de CD, o álbum Dentro d’água dá prosseguimento ao mergulho da cantora nas águas da MPB – mais especificamente nas águas que banham a obra tradicionalista de Dori Caymmi.
Dentro d’água é disco dedicado ao cancioneiro do compositor carioca, alinhando 13 músicas do filho de Dorival Caymmi (1914 – 2008). Dez são parcerias de Dori com Paulo César Pinheiro. Duas, Saveiros (1966) e De onde vens (1967), são da obra de Dori com Nelson Motta. E uma, Fora de hora (2002), é da lavra rara de Dori com Chico Buarque.
Álbum produzido por Marcelo Melo, engenheiro de som que trabalhou com a família Caymmi por cerca de 25 anos e que é pai de Maria Marcella, Dentro d’água é disco gravado sob direção musical do próprio Dori Caymmi.
Além de atuar como arranjador e de tocar o violão, instrumento condutor de faixas como Saudade do Rio (1994), Dori também canta cinco das 13 músicas do repertório sem ofuscar a soberania vocal de Maria Marcella – evidente, por exemplo, no primoroso remake de Saveiros, música de beleza ofuscada pelas vaias dirigidas a Nana Caymmi, intérprete que defendeu a composição em 1966 na primeira edição do Festival Internacional da canção (a voz de Dori entra somente no arremate da gravação de Maria Marcella, digna de antologia).
A cantora Maria Marcella lança o álbum ‘Dentro d’água’, gravado com arranjos, o violão e a voz de Dori Caymmi
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Com voz de soprano, tão afinada quanto límpida, a cantora transita com segurança por terras e águas do cancioneiro de Dori. E nisso reside o vício e a virtude do álbum Dentro d’água, cuja música-título foi lançada por Dori no álbum Setenta anos (2014).
Em bom português: Maria Marcella canta muito bem, mas jamais se arrisca no mergulho na obra de Dori, até porque quem conduz o barco é o próprio compositor, notório refratário às águas situadas fora da ilha da MPB.
A temperatura do canto da artista e dos arranjos jamais variam ao longo do disco. Dia de graça (2010), por exemplo, é música que pedia mais ênfase na percussão de Edgar Araújo para evocar com mais nitidez a tribal mistura de cores da festa vislumbrada pela letra onírica de Paulo César Pinheiro.
Como a seleção de repertório peca pelo excesso de músicas da parceria de Dori com Paulo César Pinheiro, há certa linearidade, perceptível também nos últimos álbuns de Dori, todos dedicados à parceria com Pinheiro – inclusive porque essa parceria em si soa por vezes repetitiva do ponto de vista melódico e temático, em que pese a beleza de canções como Sombra (2017) e Voz de mágoa (2017).
Feita essa ressalva, cabe mencionar que a intérprete consegue embutir no canto a melancolia que rege a poesia de letras como as de Delicadeza (2010) e De onde vens (1967), outro ponto alto do disco.
Enfim, Maria Marcella honra a obra de Dori Caymmi no mergulho de Dentro d’água com méritos vocais que credenciam a ótima cantora a correr maiores riscos fora dessa zona confortável em que se ambienta no segundo álbum de carreira fonográfica promissora.