Donald Trump chega à eleição desta terça-feira, 03, da mesma forma como terminou a campanha de 2016, em que derrotou Hilary Clinton: com a pecha de “azarão”. Mesmo aparecendo atrás de Joe Biden nas pesquisas, o republicano tem motivos para acreditar que conseguirá se manter na Casa Branca, afinal, já conseguiu, mais de uma vez, feitos que eram dados como improváveis. Trump chegou à presidência dos Estados Unidos sem nunca antes ter disputado uma eleição. Formado em uma das mais importantes escolas de negócios do país, a Wharton, na Universidade da Pensilvânia, ele se tornou personalidade pública como empresário e, mais tarde, como apresentador de TV. A fama de “magnata” começou a ser desenhada a partir de 1971, quando recebeu do pai o controle da empresa familiar que se tornaria, no futuro, a Trump Organization, uma das companhias mais bem-sucedidas do país.

Casado pela terceira vez e pai de 5 filhos, Trump anunciou em junho de 2015 que seria candidato à presidência dos Estados Unidos. No início, não foi levado a sério pela imprensa nem mesmo pelo próprio partido Republicano. Mesmo assim, deixou para trás nomes tradicionais como Jeb Bush – irmão e filho de dois ex-presidentes – e se tornou candidato. Depois, na disputa contra a democrata Hillary Clinton, que aparecia como favorita nos levantamentos, Trump contrariou as previsões e chegou à presidência, conquistando o apoio do maior número de delegados, mesmo sem a maioria dos votos populares. O republicano tomou posse em 20 de janeiro de 2017, aos 70 anos de idade e se tornou a pessoa mais velha a iniciar um mandato como presidente dos Estados Unidos. Logo de início, o atual presidente desfez políticas e acordos adotados pelo governo do antecessor, Barack Obama. Em um dos primeiros atos, ele retirou os Estados Unidos do acordo Transpacífico, criado com o objetivo de estabelecer uma aliança político-econômica contra a China. Depois, removeu o país do Acordo Climático de Paris e forçou uma renegociação do Nafta, tratado entre Canadá, Estados Unidos e México. Além disso, Trump pacificou relações com a Coreia do Norte. Em junho de 2019, se reuniu com o ditador Kim Jong-un, cruzou a fronteira entre as Coreias e se tornou o primeiro presidente dos Estados Unidos a pisar em solo norte-coreano.

Ao longo de todo o governo, respeitando um dos lemas de campanha, “America First” (em português, “América Primeiro”), Trump afastou o país de órgãos multilaterais internacionais, como ONU, Otan, Unicef, OMS e OMC. Nas negociações internacionais, usou como estratégia a imposição de tarifas e estabeleceu impostos de importação contra produtos europeus, canadenses, australianos, indianos e até brasileiros. Mas a principal marca do governo Trump em política externa foi a guerra comercial contra a China. O presidente aumentou, em centenas de bilhões de dólares, as taxas sobre produtos importados do país e impôs um bloqueio global contra empresas de tecnologia do país que contenham laços com o Partido Comunista Chinês. O principal alvo foi a Huawei, mas, recentemente, também houve ataques contra o TikTok e o WeChat. Em janeiro, Estados Unidos e China chegaram a uma trégua parcial e assinaram a fase 1 do acordo comercial – a segunda etapa só será firmada depois da eleição. Na política interna, Trump recebeu elogios do eleitorado pela indicação de juízes conservadores para cortes federais e para a Suprema Corte americana. Além disso, defendeu pautas como o direito de os americanos possuírem armas, o fim da possibilidade de aborto e o combate ao uso recreativo de maconha. Em relação a imigração, um dos principais temas da campanha de 2016, o republicano não conseguiu construir o prometido muro na fronteira com o México, mas, por decreto, baniu a entrada de pessoas de diversos países com maioria muçulmana.

A relação de Trump com o Congresso sempre foi tensa e piorou, em 2018, após os democratas reconquistarem a maioria nas Eleições Legislativas. Em dezembro do ano passado, se tornou o terceiro presidente da história dos Estados Unidos a ter um impeachment aceito na Câmara, mas acabou sendo absolvido em fevereiro de 2020 pelo Senado. A acusação era de que Trump teria cometido abuso de poder e obstrução do Congresso por supostamente ter pressionado o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, a investigar Hunter Biden, filho de 
Joe Biden, após o democrata ter anunciado a pré-candidatura à eleição presidencial. Já sem a ameaça de impeachment, o presidente caminhava em direção à reeleição, apoiado nos bons números da economia. A taxa de desemprego nos Estados Unidos chegou a 3,5% no final de 2019, o menor índice dos últimos 50 anos, e o PIB do país continuava crescendo, quando o mundo foi surpreendido pela pandemia da Covid-19. No geral, a resposta de Trump ao avanço da doença mudou algumas vezes. Em determinados momentos, o presidente criticou a política de isolamento social e o uso de máscaras; em outros, defendeu essas medidas. Em meio aos problemas econômicos e sociais provocados pelo novo coronavírus, o resultado da eleição deste 3 de novembro passou a ser uma incógnita e Donald Trump voltou a carregar o estigma de “azarão”, com o qual sempre soube lidar.

*Com informações do repórter Vitor Brown