Cantora tenta soar mais pop em single, ‘Toma essa’, que gerou clipe gravado com Ney Matogrosso. Capa do single ‘Toma essa’, de Duda Brack
Vinícius Moscatto
Resenha de single
Título: Toma essa
Artista: Duda Brack
Compositores: Bruna Caram
Edição: Matogrosso / Alá / Altafonte (distribuição)
Cotação: * * *
♪ Single lançado por Duda Brack nesta quarta-feira, 4 de novembro, Toma essa dilui a densidade habitual da discografia da cantora enquanto dá prosseguimento à narrativa do segundo álbum solo dessa artista gaúcha residente na cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Terceira amostra do álbum, o single Toma essa gera clipe de roteiro cinematográfico, gravado com a participação de Ney Matogrosso e do ator Gabriel Leone.
Em março, a cantora e compositora – revelada há cinco anos com a edição de grande e (in)tenso primeiro álbum, É (2015) – deu início à marcha para o segundo álbum com a edição do single Pedalada. Composição de autoria da própria Duda Brack em parceria com Chico Chico, Pedalada mostrou a artista em ambiente de tensão, traduzindo em sons a inquietação da música.
Em junho, um segundo single do álbum, Contragolpe, apresentou outra música inédita da artista, composta por Duda em parceria com Gui Fleming e gravada com adição de sample do grupo norte-americano Hypnotic Brass Ensemble e com produção musical creditada a artista, a Gabriel Ventura – músico que vem se revelando relevante na arquitetura da sonoridade do disco – e ao guitarrista Lúcio Maia, da Nação Zumbi.
Composição inédita de Bruna Caram, Toma essa ganha corpo no single com o baticum do grupo de percussão Os Capoeira – com células rítmicas do pagode baiano, do funk e do maculelê – na gravação produzida por Duda com o recorrente Gabriel Ventura e com Felipe Roseno. O toque incisivo da guitarra de Ventura também contribui para aproximar o single da estética sonora de Duda.
Contudo, fica a impressão de que Toma essa é música menor do que a potência e as possibilidades da cantora, ainda que o tema da letra – a retomada do poder feminino e da própria vida por mulher que se liberta de relacionamento abusivo – seja pertinente e até mesmo urgente em 2020, sobretudo em um Brasil que humilha e revolta as mulheres, além de indignar os homens de bem, ao absolver estuprador de crime já comprovado com a alegação surreal e ilegal de “estupro culposo”.
Engajado na luta, o single Toma essa é apresentado como a gravação mais “pop” de Duda Brack porque, em tese, a música tem potencial para alcançar um público maior que extrapole o nicho seguidor da artista.
Entretanto, ser “pop” implica certa diluição de intenções e tensões que sugere que talvez fosse mais inteligente para Duda Brack retomar a marcha anterior para que o segundo álbum da cantora mantenha o vigor do antecessor É.