“Nos EUA, cada um joga para o próprio time. Mesmo se algum jogador cometer alguma infração, ninguém se importa — eles só querem ver o time ganhar.” Foi assim que o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas Oliver Stuenkel definiu a situação do país neste momento de muita polarização. “Isso pode fazer sentido no curto prazo, mas no longo fica evidente: no confronto com a China, a divisão interna dos Estados Unidos enfraquece o país porque, cada vez mais, grande parte da energia é usada para lidar com divisões internas.”

Em entrevista ao Jornal da Manhã, da Jovem Pan, o especialista afirmou que fica evidente que os EUA hoje estão muito menos preparados para enfrentar uma ameaça geopolítica do que há 30 anos. “Apesar das divergências, existia um convergência geral do propósito do país, a ‘alma da nação’. Existia uma estratégia em termos mais amplos”, explica. “Essa divisão enfraquece o país e vai fazer com que o próximo presidente dedique muita energia para pacificar os Estados Unidos. E aí ele viaja menos e tem menos capacidade de se projetar. Mas os EUA teve papel fundamental para várias questões políticas e esse feito vai acontece independente de quem ganhar.”

Um outro ponto importante que merece destaque é sobre o início dessa briga com a China. “A gente acha que foi o Donald Trump que iniciou uma guinada radical da política externa em relação à China, mas isso já acontecia de uma maneira não tão visível durante a segunda parte do governo de Barack Obama“, avalia. “Aqueles que defendiam uma maior aproximação com o país asiático ficavam cada vez mais frustrados, ficava evidente que a China não cumpria as expectativas americanas para integrar o sistema internacional liderado pelos EUA.”

Porém, de acordo com ele, essa expectativas realmente seriam otimistas demais. “Trump, além de acelerar o confronto, também representou essa guinada. Minha expectativa é de que Joe Biden manteria essa estratégia, em geral, mas acho que ele teria uma capacidade maior de trazer a Europa para o lado dos EUA”, projeta. “Não é segredo que a reputação de Trump na Europa é negativa. E isso vai ser uma grande diferença. A França e a Alemanha estariam mais dispostas a se alinhar contra a China se tiver certeza em relação ao compromisso internacional dos EUA com a Otan, por exemplo.”