O noticiário internacional, que há meses estava concentrado em apenas atualizar as informações sobre a pandemia do coronavírus, arregalou os olhos diante das imagens do porto de Beirute explodindo no dia 4 de agosto. Demorou um pouco para que a hipótese de um atentado terrorista fosse totalmente descartada, já que o país, que tem apenas 10 mil km² de extensão, se espreme entre a explosiva Síria e o altamente militarizado Israel. Não fosse sua localização geográfica, da qual é vítima há séculos, o Líbano poderia ser comparado à Turquia em termos de liberdade religiosa, paisagens naturais e patrimônio histórico, sem falar da culinária árabe e da vida noturna, que era até mais agitada na capital libanesa do que em Istambul. O potencial turístico do país despontou e caiu várias vezes ao longo das últimas décadas. Beirute era considerada “a Paris do Oriente Médio” antes da Guerra Civil Libanesa, que entre 1975 e 1990 afastou não só os viajantes como os próprios moradores do país, que migraram aos montes para a Austrália e o Brasil. O curioso fato de existirem mais libaneses em território brasileiro do que no próprio Líbano, como foi dito exaustivamente ao longo do mês de agosto é, em parte, fruto dessa época. Conforme a situação do país foi se estabilizando, os turistas voltaram, e a indústria passou a compor cerca de 10% do PIB.

O início da Guerra Civil Síria em 2011, porém, atrapalhou o crescimento do setor mais uma vez. A possibilidade de ouvir do Líbano os bombardeiros na Síria não compunham o imaginário das férias de ninguém. Para os sírios, por outro lado, o território vizinho era sinônimo de paraíso – e muitos foram se refugiar por lá. Apesar de não ter chegado a uma conclusão até hoje, o conflito da Síria foi deixando de amedrontar tanto os viajantes, como comprovam as duas milhões de visitas ao Líbano em 2018. Até que veio a pandemia e, logo em seguida, a explosão.

Crise política e econômica

Diferente do que se imaginou a princípio, a destruição no porto de Beirute não foi causada por nenhum grupo terrorista, e sim pelo próprio Líbano. A explosão teve início em um armazém que guardava uma carga confiscada de quase três mil toneladas de nitrato de amônio, que deveria ter sido devidamente removida dali e realocada. O povo culpou os anos de corrupção e má gestão do governo pela tragédia, que causou a morte de cerca de 200 pessoas e feriu outras 5 mil, além de ter causado danos ou a completa destruição de 300 mil casas espalhadas pela capital. Os planos do governo de investigar a causa da explosão não foram suficientes para recuperar a fé da população na elite política do país. Assim, uma série de protestos irromperam e os ministros e o próprio primeiro-ministro foram renunciando aos seus cargos um a um desde o dia 4 de agosto. Surpreendentemente, o presidente Michel Aoun, eleito pelo parlamento em 2016, se manteve no poder, mas seu mandato deve acabar em 2022.

A verdade é que o descontentamento com o governo vem acontecendo desde o segundo semestre de 2019. Mesmo antes do início da pandemia do coronavírus, o Líbano parecia estar caminhando para um crash econômico total, sendo que até pouco tempo o país possuía um dos padrões de vida mais elevados do Oriente Médio. Com a libra libanesa atrelada ao dólar desde 1997, a população desfrutou de uma moeda estável por um tempo. Porém, o fato do país não exportar praticamente nada e importar quase tudo levou a um forte déficit comercial que tornou o câmbio fixo insustentável.

Nesse momento, os bancos privados agiram “à la Collor” e, de um dia para o outro, bloquearam todas as contas correntes e converteram os dólares para valores em libras. No final do ano passado, a relação da sua dívida pública com o PIB era a terceira pior do mundo, o desemprego era de 25% e quase um terço da população vivia abaixo da linha pobreza. Por mais que o turismo, uma de suas principais fontes de riqueza, estivesse em retomada, as contas não fechavam. Para piorar a situação, o governo apresentou um plano de taxar as ligações de voz feitas pelo Whatsapp e deu início assim a protestos massivos contra a corrupção no país que levaram à renúncia do então primeiro-ministro Saad Hariri. Por uma espécie de W.O. político, é esse mesmo Saad Hariri que ironicamente está de volta ao cargo de primeiro-ministro do Líbano, já que os seus sucessores, Hassan Diab e Mustapha Adib, desistiram sucessivamente do posto depois das manifestações causadas pela explosão no porto.

Pandemia de coronavírus

Mesmo antes do dia 4 de agosto, o número de casos de coronavírus no país já vinha aumentando devido ao recente relaxamento das medidas contra a propagação da doença. Depois da tragédia, qualquer preocupação que a população tinha com a Covid-19 ficou em segundo plano. Especialmente em Beirute, era obviamente mais importante ajudar familiares, amigos e desconhecidos a sair dos escombros do que praticar qualquer tipo de distanciamento social. Nos hospitais, os médicos e profissionais da saúde tiveram que atender inesperadamente milhares de pessoas, algumas gravemente feridas ou mesmo à beira da morte. Dessa forma, nos primeiros dias após a explosão, o país passou a ter centenas de infecções diárias. No final do mês de agosto, já eram milhares.

Segundo um levantamento feito pela Universidade Johns Kopkins, no início de outubro o Líbano somava 48.377 casos e 433 mortes causadas pela Covid-19, sendo que metade desses números foram acrescentados apenas ao longo do mês de setembro. O governo libanês até tentou impor um novo lockdown em agosto, mas a medida terminou assim que começou devido à pressão do povo, que insistiu em ir às ruas protestar contra a corrupção e a má gestão do país. No início de outubro, houve uma tentativa de estabelecer restrições pontuais nas áreas mais afetadas do país. Porém, segundo a emissora de televisão Al Jazeera, do Catar, a medida não tem sido bem-sucedida por pura falta de organização. Assim, os números de casos e mortes pela doença continuam a aumentar descontroladamente no país, que também possui uma subnotificação por pouca testagem da população.

A encruzilhada da reconstrução do porto

Nesse ínterim, quase nada foi feito pela reconstrução de Beirute que, na realidade, só sofreu novos danos desde o dia da explosão. No dia 10 de setembro, uma segunda instalação do porto, que guardava óleo e pneus, pegou fogo. No dia 15 de setembro, um incêndio prejudicou a construção de um prédio projetado pela arquiteta Zaha Hadid. No dia 9 de outubro, a explosão de um tanque de gás deixou quatro mortos e vários feridos. Com a ajuda de algumas ONGs, os próprios moradores da capital libanesa reuniram esforços para reconstruir e reformar as casas que foram afetadas pela explosão. Porém, nada foi feito pelo porto em si. As autoridades alegam que a investigação sobre os eventos do dia 4 de agosto deve ser finalizada antes que qualquer obra tenha início. Assim, a única coisa que mudou no cenário da destruição foi a instalação, no dia 27 de outubro, de uma estátua feita por Hayat Nazer a partir de destroços. A artista libanesa recolheu metais, vidros e pertences encontrados na rua para dar forma à uma mulher que parece estar com os cabelos ao vento enquanto ergue a bandeira nacional.

O principal obstáculo para a reconstrução do porto de Beirute é financeiro. Além do país estar economicamente falido, as iniciativas privadas não possuem confiança suficiente no governo libanês para fazer tal investimento. A solução seria aceitar uma das várias ofertas de ajuda vindas de países estrangeiros, mas essa opção também coloca o Líbano em uma encruzilhada geopolítica, já que não se tratam de atos de solidariedade desinteressados. O porto de Beirute está entre os mais importantes do Mar Mediterrâneo e é uma das principais portas de entrada para o Oriente Médio. Dessa forma, a nação que ajudar a reconstruir o porto provavelmente exigirá, em contrapartida, o controle de suas atividades nos próximos anos.

O aliado mais natural para o Líbano seria a França, com quem preserva laços históricos e culturais por ter sido sua colônia no passado. No entanto, esse envolvimento provavelmente não seria bem visto pelo Hezbollah, organização fundamentalista islâmica que possui força significativa na política local e é declaradamente inimiga dos franceses. Outra grande interessada em reconstruir o porto é a China. Porém, como a nação asiática já controla os portos de Alexandria, no Egito, de Haifa, em Israel, e de Piraeus, na Grécia, essa intervenção representaria o domínio chinês das rotas marítimas nessa parte do Mediterrâneo – para grande desagrado dos Estados Unidos, com quem o Líbano não deve querer arrumar problema. Por fim, a Turquia também adoraria se envolver na obra para aumentar a sua influência já existente na região, mas isso provavelmente seria malvisto pela França, fechando, assim, a sequência de impasses que o Líbano enfrenta sobre o tema.

Uma nova diáspora

Diante deste cenário econômico, político e sanitário desastroso, os libaneses estão divididos entre tentar reformar o seu país ou deixá-lo definitivamente, como fizeram muitos outros cidadãos durante a Guerra Civil Libanesa e a Guerra Civil Síria. Em entrevista à Jovem Pan, a libanesa Virgine Achkharian, de 41 anos, afirmou estar considerando se mudar para a França junto com os seus dois filhos. Moradora de Achrafieh, um dos distritos mais antigos de Beirute, ela relata que as pessoas ainda estão muito traumatizadas com a explosão. “O Líbano mudou muito nos últimos anos. Nós estávamos nos sentindo seguros de alguma forma. Nós até imaginávamos que algo grande poderia acontecer esse ano, mas o que temíamos, na verdade, era algum conflito com Israel, não essa enorme explosão que destruiu alguns dos prédios mais bonitos de Beirute”, conta. Virgine também afirmou, desesperançada, que apesar dos protestos terem sido um passo importante para o povo libanês, “os políticos sujos parecem ter chegado para ficar para sempre no controle do país”.

Assim como os demais libaneses, Virgine se sente impedida de deixar o país por dois motivos. O primeiro está relacionado às restrições por conta da pandemia de coronavírus, que dificultam o acesso a diversos países do exterior, ainda mais para propósitos migratórios. O segundo está ligado ao fato dos bancos terem confiscado as contas correntes das pessoas, que além de não poderem fazer saques, viram os dólares que tinham guardado ao longo dos anos repentinamente convertidos para libras. Na cotação atual, um dólar equivale a mais de mil e quinhentas libras libanesas. Apesar do cenário desesperançoso, Virgine está certa de que a melhor saída é a migração. “No Líbano, nós estamos sempre com medo, nós nunca estamos em paz. Nós vivemos guerra depois de guerra, explosão depois de explosão, assassinato depois de assassinato. Mas a explosão do porto de Beirute foi realmente assustadora. Eu nunca tinha escutado ou sentido algo tão amedrontador em toda a minha vida”, conclui.

Confira a estátua feita por Hayat Nazer no porto do Líbano usando destroços da explosão:

 

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She will be leaving the port in few days, as I am worried some government protestors might burn or destroy her like they did to the #Phoenix of the #Revolution in Martyr Square… I have to protect her for now, but I wish to create a much bigger replica that would be long lasting and to be hopefully located at the port, carrying items from people’s homes, and souvenirs from the people we lost at the explosion, with their names and memories, to stay, for future generations to come and see what happened to us on the 4th of August 2020… A memorial, a tribute for all of us who are traumatized here, this is a transformative art that aims at acknowledging the truth and the pain, to preserve the memories, but also to regain strength and rise again from our own ashes, to fight for the truth, for our dreams and future… We will never forget, never forgive.. but we will rise, carrying our own wounds and stories yet spreading positivity and change all over the world wherever we go… Maybe through #Art we can make the #Change we wish to see in this #World – Thanks to everyone of you who encouraged and inspired me, my public art is a blend of myself and everyone around me ❤ so much Love Photo credit by @eliebekhazi

Uma publicação compartilhada por ~ V ~ (@hayat_nazer_v) em 28 de Out, 2020 às 9:55 PDT