Cantora ficou conhecida por músicas como ‘Kriptonita’ e ‘Princesa’, impulsionadas por clipes na MTV. Banda paulistana está em pausa: ‘Estamos planejando um futuro próximo para voltar’. Vanessa Krongold, do Ludov, lança primeiro álbum solo
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Vanessa Krongold ficou conhecida como a voz do Ludov, banda que emplacou hits do pop rock nos anos 2000, como “Kriptonita” e “Princesa”. Hoje, o grupo paulistano está em pausa.
Cada integrante aproveitou esse tempo para se dedicar aos projetos paralelos e o da cantora se chama “Singular”. O primeiro álbum solo foi lançado nesta sexta-feira (6).
Ao G1, Vanessa relembrou os tempos de Ludov, falou dos cinco anos para preparar as nove canções desta estreia e lamentou a falta de diversidade nas paradas do streaming: “O algoritmo é o pior inimigo da diversidade”.
G1 – Foram cinco anos para produzir esse primeiro álbum solo. Como foi essa produção e por que demorou tanto tempo?
Vanessa Krongold – Eu quis realmente não ter pressa. Eu quis que fosse algo realmente marcante, que eu me orgulhasse. Eu e o Emerson Martins, o produtor, formos bastante caprichosos para poder dar o trabalho como encerrado. Afinal, vai ficar por aí por um bom tempo, né? Quando a gente bota um filho no mundo a gente quer que seja o mais fiel possível ao que a gente idealizou.
Estúdio é uma delícia, a gente poder brincar, a gente poder experimentar, a gente sentir o que está acontecendo com cada mudança que a gente faz. O importante é se orgulhar do que ficou no fim das contas e eu estou super feliz.
G1 – E como muita coisa foi criada há mais tempo, alguma das músicas mudou nesses cinco anos, algum arranjo ou a letra ganhou outro sentido?
Vanessa Krongold – Ouvir o disco inteiro e sentir que ele tem nove faixas que se conversam e que têm a mesma sonoridade, que não ficaram datadas. São nove músicas que juntas formam uma obra. Então, eu acho que isso é uma das características que eu mais gosto. Eu acho que a partir do momento que a gente pensa e define uma letra como algo que está pronto, e começa a trabalhar nela como uma música, eu acho que nenhuma música a gente chegou a mudar letra depois de ir para o estúdio. A gente definiu a canção, arranjou e gravou. Então, eu acho que muda mais pelo contexto.
“Instante” é uma música que tem uma certa dose de otimismo, porque a gente fala que um instante é o que é necessário pra gente fazer uma revolução. E eu acho que no momento em que ela foi escrita, ela não tinha o sentido que ela tem hoje. Eu acho que muita coisa aconteceu, o contexto mudou, e hoje ela pode ter uma interpretação diferente. Obra é algo vivo. A gente olha para obras de séculos atrás e hoje tem uma leitura com certeza diferente da época.
Vanessa se apresenta com o Ludov no Lollapalooza 2013, em São Paulo
Flavio Moraes/G1
G1 – Como é fazer pop rock no Brasil hoje e como era fazer nos anos 2000?
Vanessa Krongold – Mudou bastante, né? Na época, a gente tinha um cenário que muitas bandas de pop rock emergiram, algumas explodiram, algumas mais pesadas, um pouco mais punk, até depois veio o emo. Mas com toda esse cenário positivo que tinha na época, com a própria MTV que dava bastante visibilidade para esse tipo de música e o início das redes sociais. O MP3 democratizou pra burro a questão de como poder ser ouvido, né? Porque antes a gente não tinha nada disso, a gente tinha dificuldades de aparecer para quem conhecia a gente e quem conhecia, porque escutou na rádio ou alguma coisa assim, depois não tinha como ouvir de novo.
Naquele momento, não só as bandas com essa sonoridade se aproveitaram do momento, todas as bandas com apelo popular mais intenso emergiram cada um na proporção que tinha de angariar público. O funk veio na sequência, o sertanejo, e o pop rock, realmente, acabou se estabilizando em uma zona que talvez seja menor, mais alternativa, mas com público bastante fiel também. Desde que o Ludov iniciou, a gente mantém um número de fãs que até hoje está com a gente.
G1 – Como está o Ludov hoje? Dá para falar que vocês estão em uma pausa, tem algo planejado?
Vanessa Krongold – A gente lançou o último álbum… Não, o último parece uma palavra ruim. A gente lançou o álbum mais recente em 2014, faz um certo tempo. Todo mundo foi cuidar um pouquinho das próprias coisas Inclusive, quase todos estão com filhos agora. Menos eu, meu filho nasce nesta sexta-feira… que é esse álbum. Mas todo mundo tirou um pouquinho de tempo para cuidar das próprias vidas adultas. Não tem nenhuma desavença na banda. Estamos planejando um futuro próximo pra gente voltar a trabalhar.
G1 – Como você define aquela geração do rock dos anos 2000 que tinha Ludov, Brava, Gram, Moptop, Vanguart, Mombojó, Leela? O que une essas bandas?
Vanessa Krongold – Até comemorando os 30 anos que a MTV fez, a grande mola que todos tivemos foi a MTV. Não tem como negar a importância que teve a exibição dos nossos primeiros clipes, de montar esses grupos de fãs que admiravam as bandas. E tinha uma conjuntura econômica que estava permitindo um crescimento de casas de show, então a gente tocava bastante também.
Os shows são parte super importante para chegar no público. A gente adora descer do palco e ficar conversando com todo mundo. Isso ajuda muito a aproximar das pessoas. Essa geração teve muito isso, e também entre as bandas. A gente se cruzou muito em estrada, tocou muito junto e se convidava para show.
“O espaço para o pop rock aqui é de nicho. Todo mundo tem nicho, uns maiores e outros menores, obviamente. Mas o seguimento aqui é muito mais restrito, se a gente comparar com o mercado lá fora.”
G1 – Eu já fiz essa pergunta para artistas do rock brasileiro dos anos 80, 90, 2000, 2010… e cada um tem uma resposta. Por que o rock não consegue ter mais espaço de destaque no Brasil?
Vanessa Krongold – Um país em crise econômica dá muito mais valor aos números. Então, cada vez que a economia se enfraquece, a cultura como um todo se enfraquece. Os menores vão ficar cada vez mais achatados e os mais populares são quem vai ter espaço. Isso não tem como negar. Pela segurança, ninguém está aí para perder dinheiro. É muito mais difícil criar dificuldade em um país que está completamente da cultura, da arte e da educação.
G1 – De fato, falava-se muito que teríamos mais diversidade, mas as paradas do streaming e do YouTube parecem ter um esquema que faz lembrar o que rolava nos tempos das rádios… não há o espaço para o que se pensava que teria.
É pior ainda agora, porque a gente tem uma inteligência artificial que prioriza os maiores. Então, quanto mais tocado você é, mais você vai aparecer para todo mundo te ouvir. A tendência é que os menores fiquem cada vez mais presos a públicos menores, a menos que sejam muito criativos na hora de fazer divulgação. Então, hoje em dia artista não é artista apenas. Tem que se marketeiro, tem que saber se vender. O algoritmo é o pior inimigo da diversidade. Tem que burlar esse sistema vigente hoje.