Espetáculo da Barca dos Corações Partidos está em temporada online até 6 de dezembro, de quinta-feira a domingo, com gratuitas sessões virtuais. Elenco do musical ‘Jacksons do Pandeiro’
Renato Mangolin / Divulgação
Resenha de musical de teatro (a partir de transmissão online)
Título: Jacksons do Pandeiro
Dramaturgia: Braulio Tavares e Eduardo Rios
Direção: Duda Maia
Direção musical: Alfredo Del-Penho e Beto Lemos
Elenco: Cia. Barca dos Corações Partidos (Adrén Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos, Eduardo Rios, Fábio Enriquez, Renato Luciano e Ricca Barros)
Artistas convidados: Everton Coroné, Lucas dos Prazeres e Luiza Loroza
Produção: Sarau Agência de Cultura
Cotação: * * * 1/2
♪ Espetáculo em temporada online com gratuitas sessões virtuais de quinta-feira a domingo, às 20h, até 6 de dezembro de 2020, no canal da Cia. Barca dos Corações Partidos no YouTube.
♪ Oito anos após ter se formado a partir da navegação pela obra matricial de Luiz Gonzaga (1912 – 1989), mote do espetáculo Gonzagão – A lenda (2012), a companhia de teatro Barca dos Corações Partidos singra em torno do vibrante universo sincopado de outro pilar da música nordestina, José Gomes Filho (31 de agosto de 1919 – 10 de julho de 1982), o Jackson do Pandeiro, artista entronizado e imortalizado como Rei do ritmo.
Dono de obra calcada na síncope, articulada com marotas divisões rítmicas, o cantor, compositor e músico paraibano reinou de 1953 até meados dos anos 1960, tendo sido redescoberto na década de 1970 por conta de gravações de Gilberto Gil e Gal Costa.
É da interação desse encantado reino musical do cantor e ritmista com as histórias das vidas dos próprios atores da Cia. que Braulio Tavares e Eduardo Rios construíram a dramaturgia fluida de Jacksons do Pandeiro, sexto espetáculo da Barca dos Corações Partidos.
O musical de teatro está em cartaz na internet com gratuitas sessões virtuais exibidas de quinta-feira a domingo, até 6 de dezembro, no canal oficial da Barca dos Corações Partidos no YouTube.
Com vivacidade, percebida já pelos figurinos multicoloridos de Kika Lopes e Rocio Moure, o espetáculo reforça a assinatura da diretora Duda Maia e da própria marca teatral da Barca. Distanciados da fórmula já exaurida dos musicais biográficos, os dramaturgos e a diretora se afinam na criação de espetáculo que fala mais pela música e pelo coreográfico jogo de cena do que pelo texto, fragmentado para servir a essa cena.
Ainda assim, a dramaturgia embute pequenos monólogos como a fala brilhante em que Luiza Loroza – artista convidada da Barca neste espetáculo – personifica as mulheres da vida de Jackson em conexão com ela própria, Luiza.
Programado para ter estreado em abril, mas impedido de chegar à cena na data prevista por conta da pandemia, o musical Jacksons do Pandeiro veio ao mundo em 10 de outubro em transmissão online. Feita sob a direção de Diego de Godoy, a captação de imagens dessa primeira e única sessão ao vivo gerou a gravação ora exibida em temporada virtual com refinada estética visual que, ao mesmo tempo em que se devia do estilo “teatro filmado”, incorpora códigos da linguagem audiovisual da TV.
Em cena, os atores fazem teatro. Aos olhos do espectador, oculto para o elenco atrás da tela (da TV, do computador ou do celular), o que se vê é gênero híbrido de arte, ainda que a matéria-prima seja teatral.
O ator Lucas dos Prazeres tem presença vivaz na cena do musical ‘Jacksons do Pandeiro’
Renato Mangolin / Divulgação
À seleção de repertório da discografia de Jackson do Pandeiro, feita a partir da pesquisa de cerca de 400 músicas gravadas pelo cantor entre 1953 e 1982, a companhia adicionou músicas inéditas, compostas – em parceria ou separadamente – pelos diretores musicais do espetáculo, Alfredo Del-Penho e Beto Lemos, e pelo dramaturgo Eduardo Rios.
Dessa soma, resultou o roteiro musical formado por 54 músicas que dialogam entre si, dentro do universo de Jackson do Pandeiro, pautado por ritmos como cocos, xaxados, sambas, rojões, emboladas, frevos e baiões. Coco do norte (Rosil Cavalcanti, 1955) ecoa em Coco de mãe (Beto Lemos e Eduardo Rios), por exemplo.
Em rota que culmina com O canto da ema (Alventino Cavalcanti, Aires Viana e João do Vale, 1956), o roteiro musical cai no suingue sem deixar de apresentar números mais melódicos.
Como se os corpos dos atores fossem também instrumentos, aos quais se somam pandeiros, alfaias, tamborins, violões, violas, zabumba e sanfona (símbolo maior da música nordestina), a Barca singra em cena no balanço de temas como Forró em Limoeiro (Edgar Ferreira, 1953) e Bodocongó (Humberto Teixeira e Cícero Nunes, 1950), música que Jackson tomou para si a partir da gravação de 1966 para expiar a saudade de Campina Grande (PB), cidade onde o artista morou de 1932 a 1946 – vindo da cidade natal de Alagoa Grande (PB) – e onde começou a ganhar projeção como ritmista e cantor.
Com a liberdade de acrescentar versos de Braulio Tavares à letra de Como tem Zé na Paraíba (Manezinho Araújo e Catulo de Paula, 1962), o roteiro musical parece ter sido pensado para o coletivo. Como em outros espetáculos da Barca, a força cênica de Jacksons do Pandeiro brota sobretudo do conjunto sem impedir brilhos individuais como o de Alfredo Del-Penho no solo e no suingue do Samba do ziriguidum (Jadir de Castro e Luis Bittencourt, 1962).
A presença vivaz de Lucas dos Prazeres também merece menção honrosa em espetáculo que, na forma filmada como chega ao espectador, permite a fruição do detalhe da cena, do close impossível de ser captado pelo olho de quem está na plateia do teatro.
Contudo, é no todo, no conjunto da obra e dos sons, no encanto da síncope coletiva, que o musical Jacksons do Pandeiro enche os olhos, reafirmando o estilo e a originalidade da Barca dos Corações Partidos.