Eu jamais pensei que a lama chegaria em Paracatu de Baixo e que a nossa comunidade seria a segunda a ser atingida pela onda de rejeitos. Há cinco anos, eu estava em Mariana, essa cidadezinha histórica de Minas Gerais, me preparando para uma aula, quando recebi as primeiras informações sobre o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco. Embora fosse uma tarde de primavera, o dia parecia estranho, parado e infeliz. Mesmo assim, nada me esquentava a cabeça, nem o mal tempo, nem as primeiras notícias da tragédia. Eu pensava nos conhecidos que trabalham nas mineradoras e isso me preocupava muito, mas jamais imaginei que aquela lama atingiria a minha casa. De longe, a pouco mais de 40 km do subdistrito, a dimensão do rompimento era incerta. Uma amiga me disse que poucas casas tinham permanecido em pé após a onda de rejeitos e eu quis me agarrar com todas as forças à esperança de que a minha tinha sido uma delas. Com poucos e pequenos estragos, talvez nem tudo estivesse perdido na lama de minério de ferro e metais pesados. Talvez o desastre e a tragédia, já anunciada não fossem tão devastadores para nós.

Que inocência. Foi um verdadeiro choque quando a ficha começou a cair. Como estão meus pais? Minha avó? Meus animais de estimação? Eram tantas perguntas e nenhuma resposta. Fiquei desesperada. Paracatu de Baixo, assim como outras comunidades e subdistritos da região, não tinha sinal de celular. Poucas eram as casas com telefone fixo, então, como avisar sobre a lama que vinha invadindo lugares, carregando carros e destruindo regiões inteiras? Não haviam sirenes, avisos sonoros, treinamentos ou planos de evacuação. Não havia nada para alertar rapidamente sobre o perigo que se aproximava. “Como estarão meus amigos?”, eu pensava enquanto as coisas começavam a fazer sentido e as mensagens de parentes e amigos chegavam ao montes. “Carla, como estão seus pais?” Eu não sabia, ninguém sabia. E não havia o que fazer além de esperar.

Para os moradores de Paracatu, o simples e doloroso anúncio veio de helicóptero: 15 minutos, gritavam os bombeiros do campo de futebol. Quinze minutos para retirada morro acima na fuga da lama. Nem um minuto a mais, mas talvez alguns a menos. Foram quinze minutos para salvar a si mesmo e aos outros. Minha avó, com os efeitos da idade, meu pai, que trabalhava incessantemente no bar recém reformado e minha mãe, que enfrentava problemas de saúde, fugiram dos rejeitos deixando nossa casa, o ganha pão, os quatro animais de estimação e uma vida inteira de histórias. A lama, como uma onda, levou tudo. Em Paracatu, assim como em Bento Rodrigues, comunidade também atingida, a única coisa que restou foi a fé em Deus. Do bar do meu pai, sobraram duas paredes. Da minha casa, consegui recuperar meu vestido de formatura do terceiro ano, alguns sapatos e bijuterias, mas nada salvou. A lama deixou manchas por onde passou, os acessórios enferrujaram e o cheiro do minério de ferro era horrível. Eu costumava guardas muitas lembranças de shows e de momentos que vivi – todos foram perdidos na lama. Perdi fotos da minha formatura, de quando era pequena, lembranças e brinquedos da minha infância foram rio abaixo. Depois de um tempo, a Fundação Renova montou um canil com os animais resgatados. Visitamos o local e encontramos nossos dois cachorros e a gata da minha mãe. Como continuávamos vivendo no hotel, não conseguíamos levar todos os animais e, por isso, a minha cachorra continuou no lugar para ser castrada. Pouco tempo depois, já vivendo na casa alugada pela Samarco, fomos buscá-la, mas ela não estava lá. Ninguém sabe o que aconteceu, se ela morreu durante a castração ou se alguém levou por engano. Nunca nos deram informações.

Somando essa infinidade de bens materiais, imateriais e afetivos, a minha maior perda foi a minha gata, que me acompanhava desde que me entendo por gente. Foi mais uma das coisas que a lama levou de mim. Eu tinha o sonho de continuar vivendo em Paracatu de Baixo, na minha comunidade, na minha casa. Eu sabia que se quisesse estudar como queria, tinha de sair de lá porque não tinham opções. Mas, mesmo assim, enquanto morava em Mariana para continuar os estudos, a minha maior felicidade era voltar para casa, para Paracatu e para a minha família. Eu odiava estar longe de casa e sentia muita falta – ainda sinto. Era uma sensação de raiva por ter que ficar mais uma semana longe. Eu detestava. Eu só me sentia alegre por poder estar em casa de novo. Até que veio a lama de rejeitos e, agora, não há como voltar para casa.

Eu guardo muitas lembranças, e saudades, da nossa comunidade. Mas uma das coisas que mais lembro é de andar de bicicleta com as minhas amigas sem nenhuma preocupação, a gente só brincava na praça e naquelas ruas de terra batida. Eu era muito pequena, mas eu lembro da cavalgada que juntava um barro danado, e da Folia de Reis, que eu morria de medo do palhaço. A Folia ainda existe, mas não é igual, não é do mesmo jeito que o nosso coral. Até fizemos algumas apresentações, cantamos em um casamento, mas não ensaiamos como antes. Agora, cada um foi morar em um canto de Mariana e ficou tudo muito difícil. No começo, logo após o rompimento, a minha mãe parecia bem, mas era como se a ficha dela não tivesse caído. O meu pai ficou arrasado, ele viveu toda a vida em Paracatu de Baixo. A minha avó, dona Laura Barbosa, que também tinha uma história na comunidade, nunca mais foi a mesma. Desde 2015, eu sentia que ela foi se entregando para a tristeza, com um olhar tão triste, não saía de casa, nem gostava mais de ir no novo bar do meu pai, alugado pela Samarco em abril de 2016. Minha avó faleceu em 2018, mas ela não consta na lista de mortos dessa tragédia, mesmo que o rompimento tenha causado tudo isso.

Agora, cinco anos depois do rompimento de Fundão, fica complicado pensar em ter esperança. Não há mais nenhuma boa expectativa. A nova comunidade vai ficar um lugar lindo, mas já perdeu a característica e não será igual. O meu vínculo afetivo era com o antigo Paracatu de Baixo, então o novo local será apenas um lugar desconhecido. Eu não tenho vontade de morar lá, talvez voltar nos finais de semana para visitar. Morar, nunca. Antes do falecimento da minha avó, a minha família ainda tinha essa vontade de retornar para a comunidade. O sonho dela era ver a comunidade pronta e construída. Mas infelizmente, como outros moradores antigos, ela não conseguiu esperar e eu fui perdendo esse desejo e essa expectativa. Se passaram cinco anos e pouco foi feito. Com o ritmo das obras, se me falarem que vai demorar mais cinco anos para a reconstrução, eu acredito. Com o passar do tempo, os mais velhos estão indo e os mais novos, as nossas antigas crianças, a gente nem conhece mais. Após cinco anos de espera, como mais uma consequência da lama, a nossa vida nunca mais será a mesma.

*Depoimento dado à repórter Caroline Hardt.