Ídolo do funk é filho de violonista que tocava música folclórica com versos de resistência política. O som dos dois é bem diferente, mas o batidão de Hariel tem letras cada vez mais engajadas. MC Hariel, ídolo do funk paulistano, e seu pai, o falecido violonista Celso Ribeiro, que tocou no grupo Raíces de América
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“O Celso era muito talentoso. Tocava um violão muito bom. Falava coisas legais, tinha umas frases interessantes. Também tocava o charango [instrumento de corda tradicional na América hispânica, feito com casco de tatu]. Era poeta e um maluco”, lembra o contrabaixista Willy Verdager.
Willy e Celso Ribeiro formaram em 1979 o grupo Raíces de América, com mais seis músicos, entre brasileiros, chilenos e argentinos. Era uma entrada tardia no Brasil da “nueva canción”, movimento que unia o resgate da música folclórica da América do Sul à resistência contra as ditaduras na região.
“O bicho era doido, vocês iriam gostar de conhecer”, diz o filho de Celso, Hariel Denaro Ribeiro.
Aos 22 anos, o MC Hariel é ídolo no funk de São Paulo. Começou a cantar aos 11 e trabalhou entregando pizza e vendendo cartões antes de estourar, aos 16, com a faixa “Passei sorrindo”.
MC Hariel
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Hariel começou cantando letras de duplo sentido, quando este funk sexual estava no auge, e hoje mistura letras festivas com histórias da periferia que o aproximam do rap e do funk consciente. A habilidade com as palavras rendeu o apelido de “haridade” e a adoração do público jovem.
Ele se interessou pela música cedo, vendo o pai cantar em bares. “Têm flyers de show dele até hoje na minha casa e minha mãe se orgulha para caramba disso. Ele fez um som da hora. Antes de eu nascer ele fazia parte de um grupo chamado Raíces de América”, explica o filho.
“A Mercedes Sosa fazia parte da gangue deles”, diz Hariel sobre o antigo grupo do pai.
Mercedes é um dos maiores nomes da música popular argentina, conhecida como “a voz dos sem voz”. Foi proibida de cantar pelos militares do seu país em 1979. Naquela época, veio ao Brasil e virou “madrinha” do Raíces de América.
O grupo foi concebido por outro argentino, o empresário Enrique Bergen, que tentava expandir para o Brasil o movimento musical popular e engajado que já era efervescente havia duas décadas nos países vizinhos, graças a nomes como Mercedes Sosa e o chileno Victor Jara.
Da esquerda: Enzo Merino, Oscar Segovia, Julio C. Peralta, Isabel Ribeiro, Celso Ribeiro, Tony Osanah, Mariana Avena, Freddy Góes e Willy Verdaguer, a primeira formação do Raíces de América
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“A gente se baseava nos compositores, autores e pensadores da América Latina. Escolhíamos músicas e textos dos grandes nomes que falavam sobre ditadura, vida humana, direitos humanos”, descreve Willy, líder do grupo, que ainda segue há 40 anos na ativa.
O primeiro show foi dirigido por Flávio Rangel, consagrado dramaturgo paulista. O disco de estreia, derivado do espetáculo, era quase uma playlist de ícones da “nueva canción”: canções de Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui e um tributo a Victor Jara.
O auge de Celso
No disco de 1980, além do violão tradicional e daquele feito com casca de tatu, Celso Ribeiro foi responsável no pelas violas, fez vocais de apoio e tocou zampoña, a famosa “flauta peruana”.
A “madrinha” Mercedes, convidada pelo conterrâneo Enrique, esteve presente no início do grupo, conta Willy. “Ela veio nos conhecer pessoalmente, foi nos primeiros ensaios. Depois foi ao show, cantou algumas músicas. E escreveu umas palavras na capa do primeiro disco”, lembra o baixista.
Mercedes Sosa seguiu muito envolvida na música brasileira até sua morte, em 2009. A parceria mais conhecida foi com Milton Nascimento. Ela também colaborou com Caetano Veloso, Daniela Mercury, e voltou a subir ao palco o Raíces de América em 2007.
Mercedes Sosa em Buenos Aires em foto tirada em maio de 2000
Enrique Marcarian/Reuters
O auge do Raíces foi uma apresentação lotada no Maracanãzinho em 1982. Era o festival MPB Shell, transmitido pela TV Globo, no qual eles ficaram em segundo lugar com a música “Fruto do Suor”.
Mas mesmo ano do festival, Celso saiu do grupo sem muitas explicações aos companheiros, lembra Willy. “Eu acho que ele brigou com o empresário [Enrique], o cara que montou tudo.”
“Ele era bem rebelde, no bom sentido. Todos nós éramos”, lembra o colega.
Celso não participou de mais projetos de destaque da MPB, mas continuou trabalhando. Segundo o filho, ele voltou ao que fazia antes do Raíces de América: tocar em bares de São Paulo. Foi vendo o pai tocar “de bar em bar” quando criança que ele começou a gostar de música.
Mas a onda entre os amigos de Hariel na Vila Aurora, Zona Norte de São Paulo, não tinha a ver com a suavidade das canções folclóricas que marcaram a carreira do pai. Extrovertido, Hariel tinha o mesmo sonho de muitos colegas: cantar funk.
MC Hariel em padaria da zona leste de São Paulo
Celso Tavares/G1
A família não era pobre, mas o pai tinha problemas cada vez maiores com dependência química. Hariel chegou a morar em uma garagem na Zona Norte de São Paulo, com os pais e duas irmãs. Celso saiu de casa, cada vez mais afetado pelo vício, e morreu no início da adolescência do filho.
“Meu pai estava mesmo desvirtuado”, descreve Hariel. Hoje ele separa a admiração musical de questões pessoais. “Sou orgulhoso da história dele, mas queria que estivesse aqui comigo. Mas não gosto de falar muito sobre essa parte”, diz o filho.
Foi nessa época que ele foi trabalhar entregando pizza. “Eu era criança, tinha que fugir do conselho tutelar, me esconder deles”, lembra. Para ajudar a mãe nas contas da casa, também trabalhou em um lava-jato.
Mas foi no funk que ele se virou melhor. Na Vila Aurora, ficou amigo dos DJ Nado e MC Kitinho, dois irmãos bem relacionados na cena, e do DJ Luan, que até hoje o acompanha em shows.
Hariel foi conhecendo DJs de funk que virariam referência em SP. Seu primeiro sucesso, “Passei sorrindo”, de 2014, foi assinado pelo DJ Perera. No ano seguinte, o hit “Mundão girou”, com o DJ Jorgin, o levou a fazer os primeiros shows fora de São Paulo.
Seus maiores sucessos no YouTube até hoje são com parcerias: “Lei do retorno”, com Don Juan, e “Tem café”, com Gaab, ambas de 2017.
Um rolê com Gaab e Hariel: Cantores falam de ‘Tem café’
O principal hit sozinho é de 2018, “Vou buscar”. Nessa, Hariel está mais sério e aposta em uma batida minimalista e lenta, que hoje predomina em SP.
Nas letras e no jeito de cantar, Hariel é o funkeiro famoso que mais se aproxima do rap. Tanto que foi chamado para projetos do gênero, como o Poesia Acústica, o Oriente Acústico e o rap “Deus e família”, dos mineiros Delano e Djonga – três faixas com dezenas de milhões de views no YouTube.
O auge de Hariel
No novo EP de Hariel, “Avisa que é o F.U.N.K”, ele canta com ainda mais desenvoltura. Nesse estilo com batidas mais discretas, é a levada da voz que segura a música – e nisso ele se destaca. “Teve uma época no funk em que o DJ queria sobressair, e isso estava cansando”, ele justifica.
O papo do funk de SP também evoluiu para a sua zona de conforto. “A ascensão do funk consciente me deixa mais seguro ainda. Eu sempre fui um MC que gostei de falar de superação. Fiz funk de putaria, de dança, mas não ficava tão bom quanto esses”, ele diz.
“Capacidade todo mundo tem / Só a oportunidade que não é igual”, diz um verso de “Favela pede paz”. É uma parceria do álbum novo de Hariel com o jovem Lele JP e o veterano Neguinho do Kaxeta, destaques da tal nova onda do funk consciente.
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Em “É o poder”, o MC mostra uma visão diferente sobre a “ostentação” que já dominou o funk: “Hoje eu lembro que ‘tamo’ ostentando o que há tempos já devia ser mais normal”, ele canta. Ter uma moto hoje é símbolo de superação, mas deveria ser algo acessível a todos, ele explica.
Discurso na boate
Um fato recente que abalou Hariel foi a ação policial que deixou nove adolescentes mortos em um baile funk em Paraisópolis, em dezembro de 2019.
“Acordei na segunda-feira com aquela notícia, só de pensar fico com peito cheio de vontade de chorar. Pelo menos foi filmado. Porque esse tipo de coisa acontece toda hora. Eu já passei por isso.”
“Na semana seguinte, fui cantar numa boate de playboy. Era um baile funk, mas com filho de senador. E não é culpa dos playboys, eles estão vivendo a vida deles. Eu falei: ‘Hoje vocês estão curtindo um baile, e na semana passada as pessoas estavam fazendo a mesma coisa na periferia e aconteceu aquilo. Isso nunca vai acontecer num baile da faculdade. Aproveitem esse privilégio e estudem'”, lembra Hariel.
“O pessoal fala que eu sou comunista”, diz o MC. Mas o resto do discurso não é tão revolucionário:
“A elite não produz muito, se apodera das coisas. Mas o rico paga nosso cachê. Ele também é necessário, emprega o pobre. O problema é a forma com que a gente é tratado. Eu sei porque passo dos dois lados”, diz o MC que canta em bailes de favela e de elite.
“Através de nós, muitas pessoas criam voz, criam asas para voar. Para não ficar se submetendo, porque os ricos têm os fatores dele, mas não são os únicos”, diz Hariel.
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Será que ajudar as pessoas a “criar voz” o aproxima do movimento do qual seu pai participou há mais de 30 anos, liderado pela argentina que era a “voz dos sem voz”? Ao ouvir a comparação, Hariel acha interessante, mas não quer transformar sua música em “sermão”.
“O funk é descontraído, não pode parecer que eu quero dar um sermão. Eu não me vejo em situação de dar conselho. É mais de relatar o que eu vivo, o que eu vejo, o que eu passo, e o que a pessoa pode ou não tirar dali”, diz o funkeiro.
Da esquerda: os cantores de funk Salvador da Rima, Ryan SP e Hariel na gravação do clipe ‘Vergonha pra mídia 2’
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