Em janeiro, cantora de soul de 26 anos foi eleita artista revelação de 2020 em enquete anual da BBC que já adiantou sucesso de Adele e Sam Smith. Após pausa nos planos, 1º disco está pronto. Celeste
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No dia 9 de janeiro de 2020, a cantora Celeste, de 26 anos, teve a melhor notícia da sua carreira: ela ficou em primeiro lugar na enquete “Sound of…”, que a BBC promove todo ano entre os principais jornalistas e executivos musicais britânicos para apontar os artistas novos prontos para estourar.
Adele e Sam Smith foram vencedores anteriores da enquete, logo antes do sucesso. Dua Lipa, Billie Eilish e Frank Ocean também já ficaram bem colocados no “Sound of…” quando quase ninguém conhecia os nomes deles ainda.
Já estava tudo pronto: a nova estrela do soul nascida na Califórnia e criada na Inglaterra sairia em turnê mundial em abril para divulgar o futuro álbum de estreia, após elogiados singles como “Strange” e “Stop this flame”, com uma voz meio rouca, marcante e precisa.
A quarentena estragou os planos de todos os músicos. Mas poucos tiveram tanto azar quanto Celeste: foi tudo no tempo certinho para frustrar as altas expectativas de sucesso.
Por isso, foi surpreendente ouvir Celeste falar com calma sobre a pausa na carreira. Do apartamento dela em Londres, a cantora explicou ao G1 que achou até boa a chance de pensar melhor nas escolhas do álbum.
Ela falou sobre a pressão da estreia, sobre os conselhos de Lily Allen, outra cantora que passou por situação semelhante, sobre a receita para gravar vocais tão tocantes e sobre o amor pela bossa nova. Leia abaixo.
G1 – Como está o trabalho no disco agora?
Celeste – Estou com a lista de músicas em um papel na minha mão agora. Estou decidindo as faixas finais. Escrevi em casa por muito tempo porque não podia entrar no estúdio. Mas fui liberada para entrar um mês atrás e conseguimos gravar. Agora está basicamente finalizado.
G1 – A quarentena começou aí na Inglaterra logo depois de você ter ganhado o “Sound of…” e de ter uma turnê marcada para começar em abril. Como foi essa quebra de expectativa?
Celeste – Claro que foi um problema global, estava todo mundo passando por essa coisa incerta, de medo, ansiedade. Mas, para mim, deu liberdade para refletir sobre o que estava acontecendo e o que era importante de verdade na minha vida.
Pensei sobre porque eu faço música. Às vezes, quando têm muitas pessoas na conversa, é difícil de separar o que é sua voz e o que é de outra pessoa. E isso me deu o tempo de lembrar quem sou.
Tive mais tempo para finalizar as composições, escrever as letras. E fiquei feliz com isso. Porque eu sentia antes que estava sendo apressada para lançar. E eu não sabia se era meu melhor trabalho naquele momento.
G1 – Voltando agora ao seu passado musical: qual foi o primeiro disco pelo qual você se apaixonou? O fato de ter nascido nos EUA foi importante nisso?
Celeste – Acho que foi um disco da Ella Fitzgerald, uma coletânea com todas as músicas dela, eu ouvia o tempo todo. Mas eu escutava por causa dos meus avós, que são britânicos. Não me lembro de ouvir nada nos EUA, me mudei para cá muito nova. Eu até ouvia muita música americana, mas não era lá.
G1 – Você lançou seus primeiros singles em 2016 pelo selo da Lily Allen [Bank Holiday]. Ela passou por uma situação parecida com a sua no início da carreira, de muita expectativa pelo primeiro disco depois do sucesso com “Smile”. Muita gente achou que o disco foi dela foi apressado, até. Como você falou que sente essa pressão, queria saber se conversou sobre isso com ela.
Celeste – A gente conversou só naquela época mesmo, não recentemente. Mas o que ela me falou foi para escrever mais músicas. “Escreve mais, escreve mais”, ela dizia. Ela falou de um jeito tão sincero e direto que eu achei que devia ouvir e obdedecer. Daquele momento em diante não passei um dia sem escrever, e isso foi muito importante para mim.
G1 – Sua voz é bem profunda sem parecer exagerada, forçada. Como você grava seus vocais?
Celeste – Muitas vezes o vocal que acaba na versão final é o demo que eu gravo logo quando escrevo. Isso rola porque acaba sendo o registro mais verdadeiro da emoção da música, mostra como eu me sentia quando escrevi. Quando tento cantar no estúdio seis meses depois, às vezes é difícil recuperar o espírito. A única chance de ter a mesma intensidade é nos shows.
G1 – Suas músicas são melancólicas e eu acho curioso elas atraírem tanta atenção agora, quando parece que está todo mundo no Instagram fingindo ser feliz, escondendo a tristeza. Você pensa nisso?
Celeste – Eu espero que a minha música faça as pessoas se conectarem com seus sentimentos verdadeiros, melancólicos ou não. E você está certo. Nas redes sociais você sempre bota a melhor versão de você mesmo, nunca vê as pessoas de pijama e de mau humor. E isso me afeta, eu uso bem menos as redes agora por causa disso.
Claro que tem uma imagem que eu projeto como artista, mas eu tento mostrar minha personalidade o máximo que posso, e tento compartilhar momentos íntimos através da minha música mesmo, em vez de uma foto ou um vídeo.
G1 – Sua música tem muito de jazz e eu fiquei curioso para saber se você também ouve bossa nova ou algo brasileiro.
Celeste – Ah sim, amo bossa nova. Em faixas menos lentas eu sempre tento ter como referência a bossa nova, porque tem suavidade e gentileza e ao mesmo tempo te faz querer dançar. Tem uma música no meu disco chamada “Some goodbyes come with hellos”, que começou como uma bossa e é uma das minhas favoritas. Mas eu escuto muita coisa diferente e vou cruzando essas referências.