Com 14 músicas inéditas, o disco autoral soa como sequência natural de ‘Brasileiro’, CD de 2018, e se impõe como o melhor trabalho do artista. Capa do álbum ‘Cinco’, de Silva
João Arraes
Resenha de álbum
Título: Cinco
Artista: Silva
Edição: Farol Music
Cotação: * * * *
♪ Embora prosaico, o título do décimo álbum de Silva, Cinco, diz muito sobre a natureza do disco lançado na noite de quinta-feira, 10 de dezembro. O título se refere sobretudo ao fato de Cinco ser o quinto álbum gravado pelo artista capixaba em estúdio com inédito repertório autoral.
Pelo nome do álbum, Silva reforça o elo de Cinco com o disco anterior de estúdio, Brasileiro (2018), editado há dois anos, e deixa subentendida – ainda que inconscientemente – a banalidade dos dois últimos álbuns do artista, Bloco do Silva (2019) e Ao vivo em Lisboa (2020), ambos frutos da voracidade de indústria fonográfica que vem se pautando na era digital pela quantidade de títulos postos nas plataformas sem que esses discos necessariamente acrescentem algo relevante às obras fonográficas dos artistas.
Editado via Farol Music, o álbum Cinco marca também o rompimento de Silva com o selo slap, braço indie da gravadora Som Livre. Foi através do selo carioca slap que, a partir de 2012, Silva veio construindo ascendente carreira fonográfica.
Em oito anos, Silva deixou de ser um artista indie – cultuado em nichos mercadológicos em que a escassez de público era por vezes quase inversamente proporcional à fartura de elogios colhidos entre os críticos – e se transformou em um cantor popular, nem sempre exaltado, mas capaz de arrastar pequenas multidões Brasil afora, misturando canções autorais com o repertório de Marisa Monte (mote de disco lançado em 2016) e sucessos da era de ouro da axé music, com os quais pôs na rua o Bloco do Silva.
Silva canta samba com Criolo e interpreta ska com Anitta no álbum ‘Cinco’
João Arraes / Divulgação
Com 14 músicas inéditas, assinadas por Silva com o irmão Lucas Silva em safra que brotou em Caraíva (BA), o álbum Cinco sinaliza que o cantor quer conciliar independência e sucesso de massa.
Em ação coerente com a aguçada visão empresarial do artista, Anitta – presente em Brasileiro na música mais pop do álbum, Fica tudo bem (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2018) – foi convidada a repetir a conexão com o cantor no ska pop Facinho.
Sim, Cinco é álbum fácil, mas jamais apelativo. Ao contrário: Silva atinge ponto de maturação neste disco assumidamente pop que conserva a brasilidade tropical do álbum de 2018, mas vai um pouco além.
Como já sinalizaram os singles Passou passou (ska estilizado e ambientado em atmosfera vintage que remete a um clima sonoro dos anos 1960 sem deixar de exalar frescor contemporâneo) e Sorriso de agogô (música que recai em suingue pop com programações de Raphael Herdy Portugal e os sopros do trompete de Bruno Santos e do saxofone de Rocher Rocha), Cinco é álbum que persegue a leveza, seja no balanço do reggae que amacia No seu lençol com toque de dub, seja na levada black que remete, em Não vai ter fim, aos arranjos de gravações antigas da fase funk-soul da discografia de Roberto Carlos.
Grooves à parte, Lúcio Silva e Lucas Silva se exercitam com fluência cada vez maior na criação da canção que se pretende perfeita. Pausa para a solidão – canção de despedida, encorpada com cordas – roça essa perfeição.
Com letra que relaciona o desejo a um mar turbulento, a balada Você também chega perto, no mesmo embalo das cordas e, se soasse um pouco mais cool, talvez coubesse até em disco de bossa nova, como fica mais claro na passagem instrumental que encerra a faixa.
Silva apresenta 14 músicas compostas com o irmão, Lucas Silva, em retiro na cidade baiana de Caraíva
João Arraes / Divulgação
Quimera também tem bossa, inclusive na marcação sutil da bateria que sintoniza a faixa com Jogo estranho pelo toque maroto da caixa da bateria nessa canção – detalhe realçado no faixa-a-faixa enviado à mídia juntamente com as considerações de Silva sobre o álbum (“Cinco representa para mim um novo ciclo em minha identidade como pessoa e artista”).
Composição levada pelo violão, Não sei rezar se afina no tom de Cinco ao mesmo tempo em que aponta leve excesso de canções gravadas na mesma vibe que harmoniza o álbum. Furada, por exemplo, sobressai mais pelo arranjo de metais do que pela música em si.
Já Quem disse é faixa valorizada pela bossa latina do toque do piano de João Donato, ilustre convidado e arranjador dos sopros da faixa. Além de fazer alguns vocais, Donato assina a composição com os irmãos Silva. Quem disse tem o D.N.A. do artista acreano, e a conexão de Donato com Silva soa natural.
Já o samba Soprou é parceria de Lúcio Silva e Lucas Silva com Criolo. O rapper sambista já mostrou que é bamba, mas o samba Soprou flui em clima artificial em Cinco. Alguma coisa ficou fora da ordem. Fica difícil identificar a alardeada evocação de Caetano Veloso e da batida dos sambas do Recônvavo Baiano…
A cadência do samba flui mais naturalmente em Má situação, música que fecha o álbum em gravação orquestrada por Pretinho da Serrinha, músico que pôs cavaquinho, violão e cuíca na faixa encerrada com caloroso “lalaiá lalaiá lalaiá”.
Rejeitando a padronização por vezes vulgar do som do mainstream, Silva nunca foi tão brasileiro e tão pop, sem deixar de estar em sintonia com o tempo do artista – qualidades que fazem de Cinco o melhor álbum do cantor.