Olhando em retrospecto, não é difícil constatar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) mudou as suas orientações sobre o combate à Covid-19 diversas vezes. Chega a parecer absurdo que a entidade só tenha declarado estado de pandemia de coronavírus em março, visto que em janeiro já havia notificações da doença em pelo menos 15 países além da China, que por sua vez já reportava cerca de 9 mil infecções no mês. Igualmente estranho é recordar que a OMS só tenha começado a recomendar o uso generalizado de máscaras em junho. Até então, o posicionamento da organização era que não havia evidências científicas suficientes para afirmar que as pessoas saudáveis deveriam utilizar o item, que deveria ser adotado prioritariamente pelos infectados e pelos profissionais da saúde. Para algumas pessoas, essas mudanças de orientações são altamente criticáveis, já que podem ter custado o desenvolvimento de um surto local para uma pandemia nunca antes vista. Não à toa, a OMS concordou em ser investigada por um grupo independente, que avaliará se o seu desempenho ao longo de 2020 foi ou não satisfatório. Para outros, no entanto, as atualizações nas orientações são um reflexo do próprio método científico, que é baseado em hipóteses, testes e resultados. Um processo que leva tempo, talvez mais do que quiséssemos ou pudéssemos esperar, para dar um fim à Covid-19. A seguir, uma retrospectiva, mês a mês, de como a OMS procurou combater a pandemia:

Janeiro

Depois que os primeiros casos do novo coronavírus foram detectados em Wuhan, cidade que foi completamente isolada, a doença se espalhou rapidamente pela China: só durante o mês de janeiro, as autoridades do país reportaram cerca de 9 mil infecções e 170 mortes pelo vírus. Foi nesse meio tempo que cientistas levantaram a possibilidade de sopa de morcego ter sido responsável por levar a doença aos seres humanos. O problema é que no mesmo mês já havia notificações da doença na Alemanha, Arábia Saudita, Canadá, Estados Unidos, Filipinas, Finlândia, França, Índia, Itália, México, Reino Unido, Rússia, Singapura, Suécia e Tailândia, sinal de que o vírus estava se espalhando pelo mundo. Ainda assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) julgava ser cedo para declarar emergência, apesar de reconhecer que mais mortes poderiam acontecer nas próximas semanas. Foi só no dia 27 que a entidade se corrigiu, passando a classificar como “elevado” o risco internacional de contaminação pelo novo coronavírus, e decidiu enviar uma delegação de especialistas à China para avaliar o país de origem do surto. A essa altura, a própria China, a Austrália e os Estados Unidos já afirmavam estar se mobilizando para desenvolver uma vacina contra a doença. Além disso, as companhias aéreas já estavam começando a suspender seus voos para a nação asiática.

Fevereiro

Foi no dia 11 de fevereiro que a OMS batizou a doença causada pelo novo coronavírus de “Covid-19“. Em entrevista coletiva, o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que esse nome foi escolhido por ser facilmente pronunciável e não fazer referência a uma localização geográfica, animal ou grupo de pessoas. A ideia era, portanto, tentar desvincular o vírus aos morcegos, à China ou à sua população. A partir daí, as orientações da OMS começaram a ser contraditórias. Primeiro, a organização pediu que os governos intensificassem os seus esforços contra o novo coronavírus, já que era “impossível prever que direção essa epidemia tomará”. No dia 13, a OMS foi menos alarmista e afirmou que o surto já estava controlado no mundo, apontando queda nos casos na China. Porém, a Covid-19 começava a se disseminar na Itália, que viria a se tornar o país europeu mais afetado pela doença. Apesar de especialistas acreditarem que era uma questão de tempo até a situação se tornar uma pandemia, a OMS dizia que não deveria haver pressa em “alterar o estágio do surto” e apenas aumentou o risco de “alto” para “muito alto”. Até o fim de fevereiro, mais de 20 vacinas estavam sendo desenvolvidas e a entidade acreditava que o imunizante poderia ficar pronto em 18 meses – prazo que, felizmente, acabou se revelando menor, já que em dezembro, doses do imunizante começaram a ser aplicadas nos Estados Unidos e na Rússia, por exemplo.

Março

No início de março, a OMS admitiu que o surto do novo coronavírus estava ficando mais complexo, mas afirmou que a contenção ainda era possível e solicitou um aumento de 40% na produção de máscaras cirúrgicas e outros equipamentos de proteção individual para funcionários da saúde. Poucos dias depois, Tedros Adhanom Ghebreyesus reconheceu que a crise da Covid-19 poderia se transformar em uma pandemia, já que alguns países não estavam levando a disseminação do vírus a sério. Finalmente, no dia 11, a OMS declarou pandemia e pediu que os países adotassem restrições mais agressivas. Foi aí que mais governos decretaram o fechamento das fronteiras e as populações correram aos supermercados para estocar alimentos e produtos de limpeza. O número de casos dobrou em apenas 12 dias e rompeu a barreira de meio milhão. Mais de 20 mil pessoas já tinham morrido e apenas 22 países em todo o planeta não tinham nenhum caso da Covid-19.

Abril

A OMS abriu o mês de abril sugerindo que as dívidas externas de países em desenvolvimento fossem aliviadas, visto que as medidas para conter o novo coronavírus poderiam ser muito custosas para essas nações. Isso acabou sendo acatado pelos integrantes do G20. Paralelamente, a entidade indicava que a melhor forma de acabar com os lockdowns era “identificando, testando, isolando e tratando” a Covid-19. A organização, no entanto, ainda não demonstrava tanta certeza sobre o uso de máscara: enquanto cientistas defendiam que o uso do equipamento deveria ser difundido em toda a população, a OMS ressaltava que a prioridade deveria ser de quem estava na linha de frente do combate ao novo coronavírus. O argumento utilizado por Tedros Adhanom Ghebreyesus era de que as máscaras, sozinhas, não poderiam parar a pandemia e nem deveriam ser substituídas pelo distanciamento social e o reforço da higiene. A instituição também apontava que as pessoas infectadas poderiam garantir alguma imunidade contra a Covid-19, apesar de isso ser incerto, e que tinham certeza de que o vírus não tinha sido criado artificialmente em laboratório, como algumas fake news sugeriam na época. Foi também em abril que a OMS começou a ser criticada pelos Estados Unidos: o presidente Donald Trump cortou os seus financiamentos à instituição, acusando-a de estar muito centrada na China, não ser transparente e estar administrando mal a crise.

Maio

Como os países começaram a diminuir as suas restrições em maio, a OMS reiterou ao longo do mês que uma reabertura rápida demais poderia ser perigosa e pediu aos governos que agissem com cautela. Caso contrário, o risco de voltar ao confinamento seria grande – o que se comprovaria durante a futura segunda onda de contaminações nos Estados Unidos e na Europa. A entidade já falava que o estilo de vida das pessoas deveria ser significativamente diferente até que fosse desenvolvida uma vacina contra a Covid-19. A organização chegou a fazer testes com cloroquina e hidroxocloroquina para tratar a doença, mas logo anunciou que os medicamentos não estavam se mostrando eficazes e suspendeu os estudos. Maio também foi o mês em que os Estados Unidos romperam definitivamente as relações com a instituição, que admitiu que o novo coronavírus poderia já estar circulando na Europa desde dezembro de 2019. A China, que também foi alvo de ataques, se defendeu dizendo que só entendeu o quão infeccioso era o vírus em 19 de janeiro. A OMS, por sua vez, negou ter ocultado qualquer informação por pressão da nação asiática. No entanto, as críticas foram suficientes para a organização aceitar ser avaliada pela sua gestão na pandemia de forma independente.

Junho

Em junho, a OMS acabou retomando e depois interrompendo novamente os testes com cloroquina e hidroxocloroquina para tratar a Covid-19. No entanto, a instituição começou a apontar a dexametasona como uma possível salvação para pacientes graves da doença, chegando inclusive a pedir o aumento da produção e distribuição da substância. Por outro lado, a organização alertou que o remdesivir poderia não ser eficiente para tratar infecções do novo coronavírus depois que os Estados Unidos compraram todo o estoque mundial do medicamento. No mesmo mês, a OMS afirmou que a transmissão da Covid-19 por pessoas assintomáticas era “muito rara” e lançou uma série de recomendações sobre o uso de máscaras. A entidade afirmou que a máscaras caseiras deveriam ser compostas por três camadas de diferentes materiais e cobrir o nariz, a boca e o queixo. Além disso, a organização instruiu que era preciso estar com as mãos limpas antes de colocar e tirar o acessório, sendo recomendável não tocá-lo durante o uso. No entanto, a OMS ainda falava que a máscara deveria ser usada somente em locais com muita transmissão da Covid-19 e dificuldades para o distanciamento físico, sobretudo por pessoas idosas ou do grupo de risco. As polêmicas sobre o início da pandemia e da divulgação de informações sobre o novo coronavírus continuaram. Um estudo feito pela Universidade de Harvard apontou que o vírus poderia estar se espalhando pela China desde agosto de 2019. Enquanto isso, a OMS reconhecia que o país asiático atrasou a entrega de informações importantes sobre a doença.

Julho

A OMS começou julho tendo a sua orientação sobre o remdesivir contrariada pela União Europeia, que autorizou o uso do medicamento em tratamentos contra a Covid-19 em seus países-membro. Além disso, foi só nesse mês que a organização reconheceu o risco de transmissão do novo coronavírus pelo ar, o que levou à conclusão de que o uso de máscara era mais importante do que a OMS indicara anteriormente. Pouco depois, a entidade também concluiu que pacientes com quadros graves da doença podem transmitir o vírus por até três semanas, enquanto os com sintomas leves e moderados contaminam outras pessoas por até nove dias. A organização afirmou, ainda, que existia o risco dos assintomáticos também passarem o novo coronavírus adiante.

Agosto

Com a evolução do desenvolvimento das vacinas contra a Covid-19, a OMS começou a dizer em agosto que não deveria haver um julgamento prévio sobre os imunizantes baseado em seus países de origem. Além disso, a entidade começou a mobilizar um plano de distribuição justa das doses para as nações mais pobres. A plataforma viria a se chamar Covax e logo receberia um apoio de US$ 400 milhões da União Europeia. Enquanto isso, os primeiros casos de reinfecção do novo coronavírus começaram a chamar atenção do mundo, mas a OMS reiterava que o fenômeno era muito raro.

Setembro

À essa altura, a OMS reconheceu que as quarentenas causaram grandes prejuízos para as economias e estimularam os governos a iniciarem uma reabertura segura. No entanto, ela errou mais uma previsão ao afirmar que uma vacinação em massa contra a Covid-19 só deveria acontecer no meio de 2021 ou no início de 2022. A organização acertou, porém, ao fazer uma parceria com a Fundação Bill e Melinda Gates para distribuir 120 milhões de testes rápidos para detectar o novo coronavírus em países pobres.

Outubro

O avanço nos testes clínicos da vacina contra a Covid-19 levaram a OMS a afirmar que o mundo poderia ter um imunizante ainda em 2020 e que a entidade tinha intenção de distribuir dois bilhões de doses até o fim de 2021 através da plataforma Covax, que passa a contar com a participação da China. No entanto, a entidade ressaltou que a prioridade ainda era fazer com que o número mínimo possível de pessoas se contaminasse, apesar de indicar que novos confinamentos deveriam ser “o último recurso” devido ao impacto econômico que eles provocam. No mês de outubro também houve avanços nos estudos de medicamentos que poderiam ser usados no tratamento da doença: a OMS concluiu que cloroquina e remdesivir eram ineficazes para combater infecções do novo coronavírus, mas que a dexametasona mostrava resultados em pacientes com quadros graves.

Novembro

Em novembro, a preocupação da OMS passou a ser alertar as pessoas de que a disseminação do novo coronavírus não teria fim logo após o início da vacinação em massa. A organização apontou que, na verdade, 70% da população precisa estar vacinada para o estado de pandemia ter fim.

Dezembro

A vacinação contra a Covid-19 finalmente tem início em países como o Reino Unido, a Rússia, os Estados Unidos e o Canadá. Os primeiros imunizantes aplicados acabaram sendo o da norte-americana Pfizer em parceria com a alemã BioNTech e o Sputnik V, do russo Instituto Gamaleya. As boas notícias aconteceram em um momento em que a OMS registrou o pior dia de toda a pandemia de coronavírus: no dia 11, o mundo registrou, em 24 horas, 692 mil casos da Covid-19 e mais de 13 mil mortes causadas pela doença, os piores dados em quase um ano. Mesmo depois de todo esse tempo, a organização ainda emitiu novas recomendações sobre o uso de máscaras. Dessa vez, foi desaconselhado o uso de máscaras que possuem válvulas, que poderiam fazer com o que usuário respirasse um ar que não foi devidamente filtrado. A entidade também orientou a população em geral a utilizar máscaras com três camadas de tecido e isentou as crianças menores de cinco anos de terem que cobrir o nariz e a boca. A OMS também se pronunciou sobre a polêmica da obrigatoriedade da vacina, afirmando que o ideal é o governo incentivar a população a se imunizar, e não forçá-la a isso. O ano se encerra, no entanto, com o temor da nova cepa detectada no Reino Unido que torna o coronavírus ainda mais transmissível. A entidade afirmou que não existem evidências de que a variante cause quadros de Covid-19 mais graves ou afete a eficácia das vacinas que já foram desenvolvidas.