Os episódios da quarta-feira, 6, em Washington, nos Estados Unidos, constituíram um ataque tão grave à democracia que foi possível sentir a reverberação até mesmo do outro lado do Atlântico. O governo conservador de Boris Johnson condenou em peso o ataque promovido por apoiadores de Donald Trump ao Congresso americano. Mas o primeiro-ministro se limitou a dizer o óbvio e não mencionou o fato de Trump ter incitado a insurreição totalmente incompatível com o papel que os Estados Unidos representam no mundo.

Não foi só Johnson que se acuou — nenhum de seus ministros de primeiro escalão condenou explicitamente o líder norte-americano, que está de saída e cada vez mais pela porta dos fundos. Ainda que todos, incluindo o ministro das Relações Exteriores, tenham condenado os ataques promovidos pelos apoiadores do presidente. Coube aos partidos de oposição e aos outros líderes do Reino Unido, como a primeira-ministra da Escócia, deixar claro que a atitude de Trump é incompatível com o cargo que ele ainda ocupa.

A situação toda fez com que Boris Johnson, que já anda bastante desgastado, sofresse ainda mais pressão política internamente. É possível argumentar que, apesar da gravidade dos fatos nos Estados Unidos, tido como maior parceiro da Grã Bretanha, Johnson tem problemas internos mais graves para se ocupar no momento. O país registrou na quarta-feira, 6, mais de mil mortes causadas pelo Covid-19 — além de um novo recorde diário de casos da doença; mais de 62 mil.

A situação é muito preocupante e o próprio governo reconhece que ela ainda vai piorar antes de começar a melhorar — mesmo com a vacinação em massa acontecendo a todo vapor. Até as farmácias do país foram acionadas para começar a aplicar vacinas contra o Covid-19 a partir da semana que vem. O governo quer imunizar 13 milhões de pessoas até a metade de fevereiro e, por isso, vai contar com o apoio das grandes redes do país. As farmácias vão receber as doses da vacina de Oxford produzida pela AstraZeneca, que é bem mais simples de armazenar. O esforço coletivo, enquanto o país segue em lockdown, que aliás é aprovado pela maioria da população, segundo as pesquisas de opinião, tem sido uma das poucas notícias positivas no Reino Unido ultimamente.