Ao longo de 2020, muito se discutiu sobre a necessidade de pessoas que já tiveram Covid-19 tomarem a vacina contra a doença. Com o surgimento de variantes e a possibilidade de reinfecção, especialistas afirmam que essa é a conduta mais correta. “Existem pessoas que foram infectadas duas vezes, inclusive pelo mesmo vírus. Com as variantes, essa possibilidade é ainda maior. Por isso, é importante que as pessoas que já tiveram a doença sejam vacinadas dentro dos parâmetros preconizados pelo Ministério da Saúde“, explica Euclides Matheucci Jr., co-fundador e diretor da empresa de genética e biotecnologia DNA Consult. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), quem está com o diagnóstico PCR positivo (exame do cotonete) não pode tomar a vacina naquele momento. É preciso esperar a fase aguda da doença passar, cerca de um mês no total, e também a suspensão do isolamento.

Para os assintomáticos, a vacina pode ser administrada normalmente. Quem contrair a Covid-19 entre a primeira e segunda dose, como é o caso do cantor Agnaldo Timóteo, também deve aguardar e não tomar a segunda dose. Publicada em 10 de fevereiro, a orientação do órgão diz: “Pessoas com Covid-19 confirmada por PCR, incluindo aquelas com início de infecção confirmada por PCR entre uma dose e outra, não devem ser vacinadas até depois de estarem recuperadas da doença aguda e de os critérios de descontinuação do isolamento serem atendidos”. Para quem já teve a doença, a entidade recomendou que fossem aguardados pelo menos seis meses para a vacinação. Segundo a OMS, quanto mais informações estiverem disponíveis sobre a duração da imunidade após a infecção natural, mais essa orientação pode mudar.

Imunidade pela infecção x vacina

A resposta imunológica é a resposta do organismo frente a um corpo estranho — seja um vírus, bactéria ou inflamação. “A resposta imunológica é dada em várias frentes. Nós estamos mais acostumados a falar de anticorpos, mas é bem mais complexo. A gente tem que considerar essa complexidade antes de comentar sobre o vírus da Covid-19. Existem pelo menos dois tipos de resposta imunológica: a humoral, que a gente conhece o IgG e o IgM através do teste rápido; e a celular, em que as moléculas de reconhecimento ficam ligadas nas membranas dos linfócitos (componente do sangue com importante função no sistema imunológico). A Covid-19 provoca essas duas”, explica Euclides Matheucci Jr.

E não existe a mais eficiente: depende do vírus. No caso de doenças como a caxumba, catapora e sarampo, por exemplo, a resposta natural pós-infecção dão uma imunidade mais longa — tanto que essas doenças são conhecidas por infectarem apenas uma vez. “As pessoas costumam dizer que quando você usa a vacina, a resposta imunológica é menos intensa, menos duradoura do que quando você desenvolve a doença. Mas isso é uma generalização, porque depende. Outras doenças, como tétano e coqueluche, você não está protegido para sempre, pode vir a ter de novo. Então precisa de reforços da vacina com o tempo”, afirma Maria Isabel de Moraes Pinto infectologista e especialista da DASA.

E a Covid-19?

De acordo com a especialista, existem evidências de que quem já teve a Covid-19 pode voltar a ter novamente. E que, provavelmente, a resposta imunológica gerada pela infecção não é capaz de proteger a ponto de não desenvolver mais a doença — além das variantes, que são diferentes o suficiente para não neutralizar a infecção. “Isso acontece com a Influenza (gripe), por isso tomamos as vacinas todos os anos. Isso deve acontecer também com a Covid-19, a gente vai precisar de doses que mudem um pouco a cada ano”, completa a infectologista. A especialista da DASA reforça que a resposta imunológica não pode ser um incentivo à infecção, porque não dá para medir a gravidade do quadro, as sequelas e nem existe a garantia de que a imunidade seja duradoura. “A vacina ainda é a melhor opção, a gente precisa que cada vez mais as pessoas estejam imunes.”