A soldado de 28 anos que denunciou publicamente um tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo por assédios e ameaça de morte, Jéssica Paulo do Nascimento, teve a exoneração da PM publicada oficialmente nesta quarta-feira, 26, e alegou ter pedido para sair da corporação após pressão de colegas de trabalho. “Quando me apresentei aqui na companhia já senti uma recepção nada amigável, mas até aí pensei ‘eles não me conhecem, estão talvez me julgando, porque infelizmente mesmo com uma mulher demonstrando todas as provas, quando um homem falar qualquer coisa sem provas, um homem sempre vai ter mais poder de palavra do que a mulher’, mas falei ‘com o tempo vou mostrar meu trabalho, quem eu sou, e as pessoas vão me dar um voto de confiança, porque estou como vítima, não como acusada’”, narrou Jéssica à Jovem Pan. Com o passar do tempo, porém, a situação não melhorou. “Comecei a ser perseguida de forma bem suja, eles perceberam que o meu psicológico não estava bom, devido a tudo isso que eu passei, ameaça de morte, de estupro, e mesmo assim me colocaram para trabalhar na rua, sendo que tem a opção administrativa de quando o policial não está bem psicologicamente, ou está passando por um problema delicado como eu, geralmente dão a opção de trabalhar interno”, explicou. A policial foi examinada por um profissional de saúde da PM para narrar problemas psicológicos pelos quais estava passando e teria ouvido dele que só seria afastada do serviço se outro colega capitão, que não era médico, autorizasse.

“Eu senti que se eu continuasse a trabalhar naquele meio aconteceriam coisas que poderiam manchar a minha reputação, até mesmo de eu ser expulsa. Porque todos os dias eu estava levando advertências sem motivos, por coisas fúteis, como por exemplo dar entrevista dentro da minha casa”, lembrou. Ela também narrou que tinha direito a férias vencidas durante o período no qual esteve afastada por ter passado por situações de assédio por parte do mesmo superior anteriormente, mas mesmo com petições protocoladas pelo advogado não teve direito ao período previsto em lei. “Recebi uma mensagem via WhatsApp de um sargento da companhia de onde eu trabalhava de que eu só poderia usufruir das minhas férias se eu pedisse a baixa primeiro. Foi aí então que eu comecei a entender que estava tendo uma forçada de barra muito grande para que eu pudesse sair”, explicou. Longe da corporação — e de um sonho de infância que se tornou um pesadelo — ela se sente livre para falar e expor o assunto e deve fazer dessa uma bandeira para ajudar policiais de todos os sexos que sejam submetidos a situações semelhantes dentro da PM. “Se eu falasse tudo que estou falando hoje estando lá dentro as consequências seriam terríveis. Mesmo sem falar, já estavam sendo. Imagina se eu falasse?”, questionou. Ela lembra que, após as primeiras denúncias, recebeu uma série de mensagens de pessoas dentro e fora da polícia que passaram por situações semelhantes à dela.

Relembre o caso

Ainda no mês de abril, a policial e o advogado de defesa dela, Sidnei Henrique, falaram à Jovem Pan sobre os assédios atribuídos ao “tenente-coronel Novaes”. Com a justificativa de entregar um documento que formalizaria a troca dela de batalhão — pedida após os primeiros casos de assédios sofridos –, o policial combinou um encontro com a soldado em um feriado. Jéssica questionou se a delegacia estaria funcionando normalmente neste dia e o policial afirmou que “só eu vou funcionar”. Em outro momento o superior teria mandado a mensagem: “Vou te estuprar, carioca fogaça”. No dia em que o tenente-coronel solicitou que a soldado fosse até uma estação de metrô na Zona Sul da capital para que eles seguissem até um hotel, Jéssica decidiu denunciar o superior à corregedoria da PM, que abriu um inquérito e convocou os envolvidos na denúncia para depor. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo foi procurada para se posicionar sobre o assunto e informou que a demanda seria atendida pela própria Polícia Militar, que não deu resposta até o momento.