Protesto de mulheres afegãs por igualdade de direitos e participação no governo, na capital Cabul, foi reprimido com violência por soldados do Talibã neste sábado, 4. Segundo informações divulgadas pelo The New York Times, várias mulheres disseram que foram espancadas por combatentes. Uma delas, de 24 anos, contou que os extremistas usaram gás lacrimogêneo, sprays, tacos, ferramentas de metal e coronhadas para dispersar o grupo de cerca de 100 manifestantes. Em entrevista por telefone, ela disse que recebeu cinco pontos na cabeça por causa de um ferimento causado por um golpe que a deixou inconsciente. “Quando tentei resistir e continuar a marcha, um dos talibãs armados me empurrou e me atingiu com um dispositivo de metal afiado”, relatou ao jornal americano.

Na sexta-feira, 3, combatentes talibãs avançaram ainda mais pelo Vale do Panjshir para liquidar a reação de rebeldes liderada por Ahmad Massoud, filho do lendário comandante da resistência que enfrentou a opressão do grupo extremista nos anos 1990, Ahmad Shah Massoud. Apesar da ofensiva talibã, líderes rebeldes dizem que não irão se render ao terrorismo. Ainda segundo o NYT, o Estado Islâmico-Khorasan, o ISIS-K, que reivindicou a autoria do bombardeio mortal do aeroporto de Cabul no mês passado, que resultou na morte de mais de 180 pessoas, continua a criar problemas para o Talibã. Relatos de um alto funcionário de importante agência de ajuda ocidental em Kunduz revelam uma série de supostos assassinatos de membros do Talibã, na última semana de agosto, aparentemente por membros da filial do Estado Islâmico no Afeganistão.

Enquanto isso, a população afegã sofre, refém da crise política e econômica instalada na região. Com a ajuda financeira internacional cortada, responsável por cerca de 80% do orçamento do país no governo anterior, quase metade dos habitantes está “desnutrida”, segundo o coordenador humanitário da ONU no Afeganistão, Ramiz Alakbarov. A previsão é que quase metade de todas as crianças com menos de cinco anos sofrerão de desnutrição aguda nos próximos 12 meses, estima a agência. Desde que assumiu o poder no mês passado, o Talibã trabalha para mostrar ao mundo que não é mais a organização que aterrorizou o país do Oriente Médio entre 1996 e 2001. A comunidade internacional acredita que muitos direitos conquistados nas últimas duas décadas, principalmente pelas mulheres, irão por água abaixo com a volta dos extremistas ao poder. O grupo, no entanto, diz que não haverá retrocessos.