Em um contexto marcado por mudanças rápidas na legislação sucessória, Rodrigo Gonçalves Pimentel tem alertado famílias empresárias sobre um erro recorrente, que é tratar a estruturação patrimonial como assunto que pode ser resolvido quando “sobrar tempo”. Essa postergação, comum em negócios ainda concentrados na figura do fundador, costuma custar caro justamente no momento em que a decisão se torna urgente e as alternativas disponíveis já foram reduzidas.
O adiamento raramente decorre de falta de informação. O advogado Sideni Soncini Pimentel menciona que ele nasce, na maioria dos casos, da crença de que ainda há tempo suficiente para organizar o patrimônio com calma, sem pressão de prazos externos ou eventos inesperados. Esse raciocínio ignora que episódios como doença súbita, disputas societárias ou mudanças tributárias podem transformar uma decisão planejada em uma decisão improvisada da noite para o dia, sem margem para ajustes cuidadosos.
Por que o tempo pesa mais do que parece?
Estruturar um patrimônio envolve etapas que não se concluem em poucas semanas, como avaliação de bens, escolha de instrumentos jurídicos adequados, negociação entre herdeiros e ajustes tributários que variam conforme o perfil de cada família e a composição dos ativos envolvidos. Cada uma dessas etapas exige tempo de maturação que dificilmente pode ser comprimido sob pressão de uma emergência real, sobretudo quando há patrimônio distribuído entre diferentes empresas do mesmo grupo familiar.
Na avaliação de Rodrigo Gonçalves Pimentel, esperar o momento “ideal” para iniciar esse processo é, na prática, escolher não decidir. Famílias que aguardam sinais claros de urgência costumam iniciar a estruturação tarde demais, quando parte das opções mais vantajosas do ponto de vista tributário e societário já deixou de estar disponível, restando apenas alternativas mais custosas e limitadas.
Decidir cedo e decidir tarde produzem resultados muito diferentes
Uma estruturação patrimonial iniciada com antecedência permite escolher entre múltiplos instrumentos jurídicos, testar cenários com calma e ajustar a estratégia ao longo do tempo, sem a pressão emocional típica de decisões tomadas sob urgência absoluta. Essa margem de manobra costuma ser o principal diferencial entre processos bem-sucedidos e processos marcados por conflito prolongado entre herdeiros, com efeitos que se estendem por várias gerações seguintes.

Conforme detalha o advogado Rodrigo Gonçalves Pimentel, uma decisão tomada sob urgência, geralmente após um evento inesperado, reduz as alternativas disponíveis e amplia o risco de erros difíceis de corrigir depois, afetando não apenas o resultado financeiro, mas também a qualidade das relações familiares preservadas ao longo de todo o processo sucessório e nos anos que se seguem a ele.
Um padrão que se repete entre gerações
Historicamente, famílias empresárias brasileiras tendem a tratar a sucessão como tema desconfortável, adiado até que um evento externo force a discussão dentro do próprio núcleo familiar. Esse padrão se repete geração após geração, mesmo quando a geração anterior já enfrentou, na prática, os custos concretos e mensuráveis de uma estruturação tardia mal conduzida, muitas vezes sem sequer registrar essa lição para os herdeiros seguintes.
Rodrigo Gonçalves Pimentel aponta que romper esse ciclo depende menos de recursos financeiros disponíveis e mais de disposição para encarar o tema antes que ele se torne inevitável, o que costuma exigir uma mudança cultural dentro da própria família controladora do negócio e de seus conselheiros mais próximos, incluindo advogados e contadores que acompanham a rotina da empresa.
O custo real de esperar demais
Adiar a estruturação patrimonial não elimina a necessidade da decisão; apenas transfere o problema para um momento em que menos ferramentas estarão disponíveis para tratá-lo com segurança jurídica e financeira. Instrumentos como holding familiar, testamento e planejamento sucessório perdem eficácia quando implementados sob urgência extrema e sem tempo hábil de análise cuidadosa.
O advogado Sideni Soncini Pimentel argumenta, a partir de casos acompanhados ao longo dos anos, que o custo de esperar costuma superar em muito o esforço de organizar o patrimônio com antecedência, especialmente quando envolve múltiplos herdeiros e ativos distribuídos entre diferentes jurisdições e regimes tributários distintos, com regras próprias de tributação sobre heranças e doações.
Sobre os especialistas
Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado, empresário e sócio do Pimentel & Mochi Advogados Associados. Sua atuação envolve questões empresariais, patrimoniais, societárias e sucessórias relacionadas a empresários e famílias empresárias.
Sideni Soncini Pimentel é advogado, desembargador aposentado e integrante do Pimentel & Mochi Advogados Associados. Após uma trajetória de mais de quatro décadas na magistratura, iniciou uma nova fase profissional na advocacia, com atuação consultiva e estratégica.
