Levantamentos recentes mostram que a IA deixou de ser novidade e virou hábito diário para a maioria dos brasileiros, embora o entendimento sobre a tecnologia ainda seja limitado
A inteligência artificial parou de ser assunto de nicho e passou a fazer parte da rotina de praticamente todo mundo que usa um smartphone no Brasil. Pesquisas divulgadas nos últimos meses mostram um cenário curioso: o país está entre os que mais recorrem a ferramentas de IA no planeta, mas boa parte da população ainda não sabe explicar direito o que essa tecnologia realmente faz. Esse contraste entre uso intenso e compreensão rasa é hoje um dos temas mais discutidos entre especialistas em tecnologia e educação digital.
Uso da IA já é maioria absoluta entre os brasileiros
Segundo um estudo do instituto Datafolha realizado entre janeiro e fevereiro deste ano, 93% dos brasileiros já utilizam algum recurso de inteligência artificial no dia a dia, seja em aplicativos de mensagem, bancos digitais, plataformas de streaming ou ferramentas de produtividade no trabalho. A pesquisa ouviu mais de três mil pessoas em todas as regiões do país e reforça uma tendência que já vinha sendo observada há alguns anos: a IA deixou de ser exclusividade de especialistas e grandes empresas para se tornar parte da vida de quase toda a população conectada.
Outro levantamento, feito pela Ipsos a pedido do Google, indica que mais da metade dos brasileiros, cerca de 56%, usa inteligência artificial para ajudar em tarefas do cotidiano, um número bem acima da média global, que fica em torno de 40%. Entre os principais motivos para recorrer à tecnologia estão pesquisa e busca de conhecimento, apoio em atividades profissionais, entretenimento e criação de conteúdo. O estudo também aponta que os consumidores brasileiros usam chatbots com mais frequência do que a média dos outros 21 países pesquisados, o que ajuda a explicar por que aplicativos de conversação por IA se tornaram tão populares por aqui.
O paradoxo entre usar muito e entender pouco
Apesar da adoção maciça, existe uma lacuna importante entre praticar e compreender. Uma pesquisa sobre consumo e uso de inteligência artificial no Brasil mostra que 82% das pessoas já ouviram falar do termo, mas apenas 54% dizem realmente entender do que se trata. Isso significa que quase metade da população interage com sistemas de IA sem ter clareza sobre como eles funcionam ou o que acontece com os dados fornecidos durante o uso. Esse descompasso preocupa educadores e reguladores, já que a falta de compreensão pode dificultar decisões conscientes sobre privacidade e segurança digital.
A situação fica ainda mais evidente quando se olha para o consumo do ChatGPT no país. Um estudo divulgado pela própria OpenAI aponta que o Brasil ocupa a terceira posição mundial em uso da ferramenta, atrás apenas de Estados Unidos e Índia, com mais de 140 milhões de mensagens enviadas por brasileiros todos os dias à plataforma. O volume é expressivo para um país que, segundo a mesma pesquisa, ainda enfrenta desigualdade regional no acesso e na familiaridade com o tema: enquanto o Sudeste registra os maiores índices de conhecimento sobre IA, o Nordeste aparece com os números mais baixos.
O que essa realidade significa para quem usa o celular todo dia
Para o usuário comum, essa combinação de uso intenso e conhecimento limitado tem consequências práticas. Muita gente interage com sistemas de recomendação, assistentes de voz e filtros automáticos sem perceber que está lidando diretamente com inteligência artificial, o que dificulta identificar quando uma informação foi gerada por máquina ou quando um aplicativo está coletando dados de comportamento para personalizar anúncios e conteúdos. Especialistas em educação digital recomendam que o usuário busque entender, ainda que de forma básica, como funcionam as ferramentas que usa com frequência, principalmente quando envolvem decisões financeiras, de saúde ou de segurança pessoal.
Outro ponto que ganha espaço no debate é o impacto cognitivo do uso excessivo dessas ferramentas. Estudos recentes, incluindo um conduzido por pesquisadores ligados à Cornell University, sugerem que a dependência de modelos de linguagem para tarefas de escrita pode reduzir o engajamento em processos de raciocínio mais profundo. Isso não significa abandonar o uso da tecnologia, mas reforça a importância de equilibrar a praticidade oferecida pela IA com o exercício do pensamento crítico, especialmente entre estudantes e profissionais que dependem da escrita no dia a dia.
Diante desse cenário, cresce a pressão para que o país invista em programas de letramento digital voltados especificamente para inteligência artificial, e não apenas em infraestrutura de acesso à internet. Afinal, ter um smartphone com aplicativos de IA instalados não garante que a pessoa saiba usar essas ferramentas de forma segura e consciente. O desafio agora passa a ser menos sobre acesso e mais sobre educação, o que deve pautar políticas públicas e iniciativas privadas nos próximos anos.
O Brasil consolidou uma posição de destaque no uso global de inteligência artificial, mas os números também servem de alerta. Ampliar o acesso à tecnologia sem investir paralelamente em compreensão crítica pode aprofundar desigualdades já existentes no ambiente digital. A tendência é que o tema continue no centro do debate público, à medida que a IA se torna cada vez mais presente em decisões que afetam trabalho, consumo e relações sociais no país.
Fontes consultadas:
- BoenoTech, sobre o estudo Datafolha: https://boenotech.com.br/estudo-datafolha-revela-que-93-dos-brasileiros-ja-utilizam-ia-em-2026/
- Mobile Time, sobre pesquisa Ipsos/Google: https://www.mobiletime.com.br/noticias/19/01/2026/brasileiros-ia-cotidiano/
- Fundação Itaú, pesquisa sobre consumo e uso de IA no Brasil: https://fundacaoitau.org.br/observatorio/biblioteca/pesquisa-consumo-e-uso-da-inteligencia-artificial-no-brasil
- FDC, sobre ranking do Brasil no uso de IA: https://sejarelevante.fdc.org.br/uso-de-ia-no-brasil-pais-e-o-3o-no-mundo-em-utilizacao/
