Em meio às transformações recentes no crescimento das cidades brasileiras, Marcello José Abbud, referência em tecnologias inovadoras para tratamento de resíduos sólidos urbanos, indica que as zonas de transição rural-urbana, territórios situados entre o tecido urbano consolidado e as áreas rurais adjacentes, representam um dos contextos mais desafiadores para a gestão de resíduos sólidos no país.
Esses territórios combinam características de uso do solo híbridas, com pequenas propriedades agrícolas convivendo com loteamentos irregulares, chácaras de lazer e bairros periféricos em processo de urbanização, criando uma demanda de serviços ambientais que os sistemas municipais convencionais raramente conseguem atender de forma adequada.
Saiba neste artigo por que essas áreas merecem atenção prioritária nas políticas de saneamento e quais soluções já demonstram viabilidade nesses contextos.
As características específicas das zonas de transição e seus desafios de cobertura
As zonas de transição rural-urbana apresentam densidade populacional intermediária, infraestrutura viária precária e padrões de ocupação que se transformam rapidamente ao longo do tempo, à medida que a expansão urbana avança sobre áreas anteriormente rurais. Essa dinâmica de transformação acelerada dificulta o planejamento de longo prazo dos serviços de coleta de resíduos, já que as rotas e a frequência de atendimento definidas em um determinado momento podem se tornar rapidamente insuficientes diante do crescimento populacional e da densificação da ocupação.
Conforme aponta Marcello José Abbud, a ambiguidade regulatória sobre a responsabilidade pela prestação de serviços de saneamento nessas áreas, que muitas vezes não se encaixam claramente nas categorias de zona urbana ou zona rural utilizadas pela legislação municipal, cria uma situação de vácuo institucional em que nenhum órgão assume integralmente a responsabilidade pela gestão de resíduos. O resultado é a proliferação de pontos de descarte irregular, queima de resíduos a céu aberto e acumulação de materiais em terrenos vazios, que se tornam passivos ambientais de difícil remediação posterior.

A heterogeneidade dos resíduos gerados nesses territórios
Os resíduos gerados nas zonas de transição rural-urbana combinam características de origem domiciliar urbana com resíduos de atividades agrícolas de pequena escala, como embalagens de insumos, restos de poda e resíduos de criação de pequenos animais. Essa heterogeneidade exige uma abordagem de gestão diferenciada das soluções padronizadas desenvolvidas para áreas urbanas consolidadas, que frequentemente não consideram a presença significativa de resíduos orgânicos de origem agrícola nem a dispersão geográfica característica dessas regiões.
Na concepção de Marcello José Abbud, soluções de compostagem descentralizada, adaptadas à escala e à dispersão geográfica típica dessas zonas, têm maior potencial de adoção do que sistemas de coleta centralizada que dependem de rotas longas e onerosas para atender propriedades dispersas. A combinação entre compostagem domiciliar ou comunitária para a fração orgânica e pontos de entrega voluntária estrategicamente distribuídos para resíduos secos recicláveis representa um modelo mais adequado à realidade desses territórios em transformação.
Caminhos institucionais para a estruturação de serviços adequados
A superação do vácuo institucional que caracteriza a gestão de resíduos nas zonas de transição rural-urbana exige clareza regulatória sobre as responsabilidades de cada esfera de governo e investimento em modelos de coleta adaptados às características específicas desses territórios. Diante disso, planos municipais de gestão integrada de resíduos sólidos que reconheçam explicitamente essas zonas como categoria diferenciada, com diagnóstico próprio e soluções específicas, são um primeiro passo necessário para sair da invisibilidade institucional que hoje caracteriza esses territórios na maioria dos municípios brasileiros.
Empresário e especialista em soluções ambientais, Marcello José Abbud salienta que a participação de associações de moradores e produtores rurais no diagnóstico e no planejamento das soluções de gestão de resíduos para essas zonas é fundamental para garantir que as alternativas propostas sejam efetivamente adequadas às particularidades locais. A experiência acumulada em municípios que já avançaram nessa direção demonstra que soluções construídas em diálogo com as comunidades afetadas têm maior taxa de adesão e sustentabilidade ao longo do tempo do que modelos impostos verticalmente sem consideração pelas especificidades do território.
