Existe uma classe de ativos que se valoriza exatamente nos momentos em que a maioria dos investidores busca segurança. Segundo Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, os créditos estressados, formados por dívidas de empresas em dificuldades financeiras ou em processo de recuperação judicial, atraem capital especializado justamente quando o cenário econômico piora. Essa lógica contraintuitiva não é especulação. É a estrutura de um mercado que opera com regras próprias e que, nas últimas décadas, produziu retornos expressivos para quem aprendeu a navegá-lo com rigor.
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Por que a crise amplifica o mercado de créditos estressados?
Quando o ciclo econômico se inverte e o crédito fica mais caro e escasso, empresas que já operavam no limite da capacidade de pagamento começam a acumular inadimplência. Bancos e fundos de crédito, pressionados por índices de provisionamento e pela necessidade de liberar capital regulatório, precisam retirar esses ativos de seus balanços. Esse movimento cria uma oferta crescente de créditos problemáticos sendo vendidos a frações do valor original.
A combinação de pressão vendedora elevada com poucos compradores qualificados gera os grandes descontos que tornam o segmento atrativo. Em períodos de crise aguda, é comum que créditos com garantias reais sólidas sejam negociados a 20% ou 30% do valor de face, simplesmente porque o mercado secundário para esses ativos é estreito e os vendedores precisam de liquidez imediata. De acordo com o empresário Felipe Rassi, esse desequilíbrio entre oferta e demanda é a matéria-prima de boa parte dos retornos que o segmento historicamente entregou.

Como destaca Felipe Rassi, é importante separar dois tipos de oportunidade nesse ambiente. O primeiro é o crédito estressado por iliquidez: a empresa devedora tem capacidade de pagamento, mas o credor precisa de capital agora e aceita vender com desconto. O segundo é o crédito estressado por insolvência real: a empresa enfrenta dificuldades estruturais e a recuperação do valor depende de um processo judicial ou de uma reestruturação profunda do negócio. As estratégias de investimento para cada caso são completamente diferentes, assim como os perfis de risco e retorno envolvidos.
Quem atua nesse mercado e com qual lógica operacional?
Conforme Felipe Rassi informa, o mercado de créditos estressados no Brasil concentra três grandes perfis de investidores. Os fundos especializados, frequentemente com capital estrangeiro e equipes jurídicas e financeiras dedicadas, operam com estratégias estruturadas de compra, gestão e monetização de carteiras. As empresas de factoring e securitizadoras atuam na ponta mais operacional, comprando créditos em volume para estruturar produtos financeiros a partir deles. E investidores institucionais e family offices com perfil mais sofisticado acessam oportunidades pontuais de maior tamanho e complexidade.
O que une esses perfis é a disciplina na precificação. Nenhum desses agentes compra crédito estressado sem um modelo de avaliação rigoroso que estime o valor recuperável do ativo, o tempo provável de recuperação, os custos do processo e o risco de deterioração adicional da situação do devedor. Quando esse modelo é bem construído, o investimento carrega uma margem de segurança que absorve variações no cenário sem comprometer o retorno esperado.
Crise como janela de entrada: o timing que define o resultado
A ironia do mercado de créditos estressados é que os melhores momentos para entrar são justamente os mais desconfortáveis para a maioria dos investidores. No auge de uma recessão, quando a incerteza é máxima e o apetite por risco está comprimido, os preços dos ativos estressados atingem os maiores descontos. Quem entra nesse momento, com análise sólida e capital paciente, captura a valorização que acontece na fase de recuperação.
Esse padrão se repetiu de forma documentada em todas as grandes crises econômicas dos últimos trinta anos, tanto no Brasil quanto em mercados mais desenvolvidos. Não é uma promessa de retorno garantido. É um padrão estrutural que decorre da dinâmica de oferta e demanda do segmento. Reconhecer esse padrão e ter a disciplina para agir quando o mercado está pessimista é o que separa investidores que constroem resultados consistentes dos que sempre chegam tarde às oportunidades, comenta o especialista no mercado financeiro Felipe Rassi.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
