O debate em torno de qual cidade inventou o turismo rural no Brasil ainda não tem resposta unânime. Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, acompanha essa disputa histórica com curiosidade, atenta a roteiros que unem hospedagem, natureza e resgate cultural pelo país. Enquanto o interior de São Paulo aponta a região de Mococa como pioneira, a cidade catarinense de Lages reivindica o título com uma tradição de fazendas centenárias que remonta a 1766. O setor que nasceu dessa disputa já soma mais de dez mil empreendimentos distribuídos por pelo menos dezesseis estados brasileiros.
Vamos entender como esse turismo se popularizou, onde ele já funciona bem no país e por que virou também sinônimo de luxo em determinadas regiões.
Como o turismo rural nasceu no Brasil?
Na região de Mococa, no interior paulista, produtores estruturaram uma das primeiras rotas organizadas do país a partir da década de 1980, reunindo fazendas que já ofereciam cavalgadas, hospedagem e culinária típica para visitantes vindos das capitais próximas. Na década seguinte, o modelo se expandiu e se fortaleceu em estados como Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, criando as bases regionais que sustentam boa parte da oferta atual do setor.
Como assinala Daugliesi Giacomasi Souza, Lages, em Santa Catarina, também reivindica papel fundador nessa história, com fazendas centenárias erguidas a partir de 1766, quando o bandeirante Antônio Correia Pinto de Macedo fundou a povoação como ponto de descanso na rota do gado entre o sul do país e São Paulo. Propriedades marcadas por taipas de pedra, araucárias e tradição de cavalgadas, ordenha e fogo de chão ainda recebem visitantes na região, especialmente durante o inverno, quando a geada e, ocasionalmente, a neve cobrem os campos da Serra Catarinense.
O Vale do Café e as fazendas centenárias do Rio de Janeiro
Em Vassouras, no interior fluminense, fazendas erguidas entre os séculos XVIII e XIX contam a história do antigo ciclo do café, que sustentou boa parte da economia regional naquele período. A Fazenda Santa Eufrásia, ícone do Vale do Café, passou por um processo minucioso de restauração e hoje recebe turistas interessados em explorar suas raízes históricas e culturais, enquanto a Fazenda São Luiz da Boa Sorte preserva um acervo peculiar de objetos e construções originais do século XIX.

Esse tipo de hospedagem funciona como museu vivo, no qual o visitante não apenas observa peças históricas, mas dorme, come e caminha dentro do mesmo cenário que sustentou gerações de famílias ligadas à produção cafeeira do Vale do Café. A Fazenda Cachoeira Grande complementa essa oferta com hospedagem em chalé, unindo conforto contemporâneo à imersão completa no ambiente rural que caracteriza a região, informa Daugliesi Giacomasi Souza.
Por que esse turismo virou também sinônimo de luxo?
O interior do Rio de Janeiro vive expansão recente de um turismo rural mais sofisticado, combinando o charme bucólico de fazendas centenárias com o conforto de hospedagens de alto padrão. Propriedades como as Casas Serranas, em Teresópolis, e a Casa Guará, em Areal, atraem grupos em busca de experiências específicas, como colheita de morangos, degustação de queijos e vinhos regionais e passeios guiados por paisagens naturais preservadas.
Segundo aponta Daugliesi Giacomasi Souza, esse tipo de proposta atende a um público que busca autenticidade sem abrir mão de conforto, tendência que dados de plataformas de turismo já confirmam ao colocar o estado entre os mais buscados para viagens de inverno em 2026. A oferta crescente de aluguéis por temporada nessas propriedades reforça esse movimento, ampliando o acesso a experiências antes restritas a hóspedes de pousadas tradicionais menores.
Os números que mostram a força do setor
O Brasil já reúne mais de dez mil empreendimentos voltados ao turismo rural, presentes em pelo menos dezesseis estados, consolidando o segmento como importante motor de diversificação econômica para regiões que antes dependiam quase exclusivamente da agricultura convencional. A Ruraltur, maior feira gratuita de turismo rural do país, reúne em 2026 expositores de diferentes regiões em Santa Teresa, no Espírito Santo, estado que se destaca pela produção de cafés especiais, vinhos e cervejas artesanais aliada à tradição familiar no campo.
Como pondera Daugliesi Giacomasi Souza, pesquisas recentes do setor de viagens confirmam que os brasileiros buscam cada vez mais autenticidade, natureza e experiências regionais em detrimento de roteiros turísticos genéricos e repetidos, movimento que beneficia diretamente pequenos produtores dispostos a transformar suas propriedades em destino. Esse crescimento contínuo mostra que o turismo rural deixou de ser nicho restrito a poucas regiões pioneiras e se tornou parte relevante da forma como o Brasil se relaciona com o próprio interior. Dormir em uma fazenda centenária ensina algo que nenhum hotel de rede internacional consegue replicar: a sensação de que o tempo, ali, ainda segue outro ritmo.
